Um blog para mulheres inteligentes e empoderadas pelo conhecimento!

Um blog para mulheres inteligentes e empoderadas pelo conhecimento!
"Reading Goethe's Werther". Wilhelm Amberg.1870.

sábado, 20 de maio de 2017

3 obras literárias que viraram ótimas adaptações cinematográficas

Olá meus amores-leitores da vida!!! Tudo bom com vocês neste mês de maio? Espero que sim!!! Na última segunda-feira (15/05/2017) saiu nossa participação no canal Cinetê, do querido youtuber Renan Ferreira - fizemos lá um gostoso bate-papo sobre literatura e a sétima arte. Indicamos 3 obras literárias que tiveram ótimas adaptações cinematográficas, vocês sabem que amo cinema né?


O filme "O vestido" tem a história baseada no poema "Caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade. Uma esposa é totalmente apaixonada pelo marido e acredita firme e forte no poder do amor e do casamento...até a chegada de uma "mulher do demo" que vem de fora e enfeitiça o marido da outra, usando um belo vestido. O que acontece no final? Leia o poema e depois assista o filme ;) 





O filme "Moça com brinco de pérola" é baseado no romance homônimo da autora norte-americana Tracy Chevalier. Olha o trailer aqui:




Por último mas não menos importante o meu preferido da vida! O filme "As horas" é baseado no enredo do romance também homônimo do autor norte-americano Michael Cunningham, que inclusive ganhou o maior prêmio literário dos EUA por essa obra em 1999, o prêmio Pulitzer. Olha o trailer do filme aqui:



Com exceção do Drummond, claro, os outros 2 autores ainda estão na ativa ;) Já assistiu ou já leu essas obras que indiquei? Comenta aqui no blog! P.S: meus ex alunos de Literatura de Língua Inglesa com certeza já fizeram um dos dois rsss....

quarta-feira, 26 de abril de 2017

"Você gosta de poesia?" - Sobre a Poesia Marginal ou a Geração Mimeógrafo



Resultado de imagem para poesia marginal


Você gosta de poesia? Se sim, deixe de lado seus pré conceitos sobre poesia, principalmente sobre poesia marginal. Não, ela não foi produzida por um bando de loucos sem rumo, sem eira nem beira, que só queriam bagunçar o cenário intelectual arrumadinho nos idos das décadas de 1960,1970 e começo de 1980. Não, eles não eram alienados. Eles queriam bagunçar, mas também queriam espaço e voz que não eram dados a quem queria uma terceira opção de expressão.

Em um contexto social complexamente bipolar, bipartidário, unilateral e pouco plural, dominado por frases de efeito como “ordem e progresso”, “ame-o ou deixe-o”, em que ou você era conservador e a favor do país e da família ou era comunista e guerrilheiro, contra a moral, os poetas marginais propunham novas experiências literárias; novas vivências; um novo caminho de existência, talvez, um caminho do meio no meio de poucas opções de ser.


O ser humano precisa de mais do que isso pra viver. A poesia é de todos, para todos. É um momento de comunhão de emoções, de doação de sentimentos variados, que não se limita a um pedaço de papel ou a um reconhecimento acadêmico. A poesia transborda do papel para virar música – pois um dia era lira e aqui volta a seu estado original; a poesia transborda em gestos e olhares com o público, pois qual o motivo de poetar sem ter alguém pra dialogar? Serei eu um poeta? Qualquer um pode ser poeta, produzir poesia, a palavra é minha, por que não? Por isso a pergunta é tão simples e ao mesmo tempo tão urgente: você gosta de poesia?

Apresento-lhes então Torquato Neto, Waly Salomão, Ana Cristina César, Cacaso, Chacal, Charles, Afonso Henriques Neto, Francisco Alvim, Paulo Leminsky. Marginais porque plurais; marginais porque espontâneos; marginais porque a literatura, na verdade, precisa de aventura e de loucura. Marginais porque a poesia não precisa de aprovação de um grupo seleto pra acontecer. O povo é onde minha poesia acontece. Ser poeta é ter atitude. O mundo é grande e minha poesia não se limita ao céu.

DEVENIR, DEVIR (WALY SALOMÃO)

Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.

Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.

Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.

Morro e transformo-me.

Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém

Morre e transforma-te.   


Temos um grupo de performance em que fazemos intervenção poética: ler poemas para causar espanto e reflexão. Porque poesia é isso. É o nosso instante. E é o bastante.





domingo, 26 de março de 2017

A câmara sangrenta e outras histórias, de Angela Carter

Resultado de imagem para a camara sangrenta angela carter
(Porto Alegre: Ed. Dublinense, 2017)

Casado três vezes no decurso da minha própria breve vida com três graças diferentes, ele agora me convidara, como se para demonstrar o ecletismo de seu gosto, para integrar essa galeria de mulheres bonitas - eu, a filha da viúva pobre [...] (p.20)

Olá de novo meus amores leitores! Mais uma resenha literária maravilhosa que hoje trago para vocês: um conto da não menos maravilhosa autora inglesa Angela Carter e sua atualização dos clássicos contos de fadas. Atualização sim, pois Carter (re) conta algumas destas clássicas histórias populares valorizando a figura da mulher, promovendo assim um pensamento mais empoderado e forte sobre a figura feminina na sociedade.

Essa obra chegou pra mim neste mês de março pois sou assinante da Tag Experiências Literárias; já contei aqui em outro post que tenho gostado muito da seleção de livros que chegam mensalmente. Quem fez a indicação de A câmara sangrenta e outras histórias para nós, assinantes da TAG, foi a não menos maravilhosa escritora Marina Colasanti. Como o mês de março é "considerado" o mês da mulher, a proposta de leitura / discussão da obra segue essa linha mesmo: refletir sobre a força feminina na sociedade e perceber como nós, mulheres, podemos ser e somos agentes transformadores do nosso próprio destino.

Publicado em 1979, A câmara sangrenta e outras histórias "explora o tema do feminismo ao contrastar elementos tradicionais da ficção fantástica -que habitualmente descreve personagens femininas como frágeis e desamparadas - com protagonistas fortes e impositivas." (Revista da TAG, p.13)

Não conhecem Angela Carter? Indico essa obra aqui embaixo, ó, para começarem a ver um pouco do trabalho de pesquisa e seleção de contos populares que ela realizou, e como suas reflexões sobre o universo feminino foram e são importantes para a literatura:


Resultado de imagem para a menina do capuz vermelho e outras histórias
(São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011)

Carter é uma mulher de seu tempo: vivenciou as lutas e conquistas femininas a partir da década de 1960 e ela não se omitiu - deu voz bem alta a muitas personagens em suas narrativas, ao mesmo tempo em que se aprofundava no estudo, coleta e análise de contos populares ("contos de fadas") das mais diversas culturas. Segundo ela, o resgate dessas histórias nos revela que "o passado foi duro, cruel e especialmente hostil para as mulheres, por mais desesperados que tenham sido os estratagemas que usamos para fazer as coisas um pouco à nossa maneira." (2011, p.23).

Mas vamos à história de A câmara sangrenta? Aqui só falaremos deste conto, para que vocês fiquem com gostinho de quero mais e leiam os outros contos da obra de Carter. Ele é uma "repaginação" moderna do famoso conto de fadas Barba Azul, popularizado séculos antes por Charles Perrault. Carter traz a história narrada pela própria personagem, a mocinha virgem e pobre que aceita se casar com um homem rico e beeeem mais velho - ela é sua quarta esposa. Não há indícios de amor, mas de um grande desejo de posse, por parte do marido, e de curiosidade, por parte da jovem. Ela se atrai por esse mundo luxuoso e pela aparência viril e forte que aquele homem tem a lhe oferecer: por isso aceita casar-se.

Ele me beijou e colocou a mão imperativamente sobre o meu seio, por baixo da bainha de renda antiga [...] (p.31)

Ele a leva para seu castelo à beira do mar, na região francesa da Normandia, "isolado do continente pela maré durante metade do dia." (2017, p.25) Sim, era um castelo cujo acesso  para o continente se dava apenas quando a maré baixava; quando estava alta, o castelo ficava mesmo isolado. Após uma breve lua de mel e apresentação do imenso lugar à sua esposa, o marido lhe dá todas as chaves de todas as portas do castelo, fazendo porém a ressalva sobre uma delas em específico: "prometa-me que vai usar todas as chaves no anel exceto essa última que lhe mostrei." (p.38) E em seguida ele lhe diz que precisa fazer uma viagem de negócios de última hora.

Consumida pela curiosidade, a jovem, é claro, decide não só explorar o castelo como também entrar na câmara proibida: lá, descobre que é uma câmara de tortura mantida pelo marido, responsável pelas mortes de suas ex-esposas. E agora? Como ela fará para se desvencilhar deste casamento fadado à tragédia?

No famoso conto de fadas, Barba Azul é um homem rico e poderoso que propõe casamento a uma jovem pobre. Com isso, ela vê uma oportunidade dupla: sair do lar e ter compensação financeira. Mesmo impactada pelo aspecto feio da barba e sinistro mesmo de seu pretendente, ela se casa. Ele também lhe diz que ela pode desfrutar de tudo o que existe no castelo, com exceção de um quarto secreto. Mesmo assim, ela cede à curiosidade e adentra o recinto proibido, dando de cara com as atrocidades cometidas pelo marido contra suas esposas anteriores, que permaneciam degoladas e penduradas, tal qual um açougue.

Não vou contar o final das duas histórias - a clássica e a "repaginada" por Angela Carter, porque vale muito a pena a leitura de ambas. Mas devo dizer que fiquei muito feliz em ler o final de A câmara sangrenta: demonstra que realmente nós, mulheres, devemos sim ser solidárias umas com as outras. Somente um senso forte de irmandade e cumplicidade entre mulheres nos salvará de um mundo em que ainda se aceita toda e qualquer forma de violência masculina. Temos esperança de que um dia homens e mulheres se respeitem de tal forma que não precisem mais se enxergar com tantas diferenças.

Lancei um último olhar desesperado da janela e, como num milagre, vi um cavalo e seu cavaleiro galopando a uma velocidade vertiginosa ao longo da passagem [...] (p.64)

domingo, 5 de março de 2017

Pausa poética: "O tempo que não se perdeu", Pablo Neruda

(Porto Alegre: L&PM, 2010)

O TEMPO QUE NÃO SE PERDEU

Não se contam as ilusões

nem as compreensões amargas,
não há medidas pra contar
o que não podia acontecer-nos,
o que nos rondou como besouro
sem que tivéssemos percebido
do que estávamos perdendo.

Perder até perder a vida

é viver a vida e a morte
não são coisas passageiras
mas sim constantes, evidentes,
a continuidade do vazio,
o silêncio em que cai tudo
e por fim nós mesmos caímos.

Ai! o que esteve tão perto

sem que pudéssemos saber.

Ai! o que não podia ser

quando talvez podia ser.

Tantas asas circunvoaram

as montanhas da tristeza
e tantas rodas sacudiram
a estrada do destino
que já não há nada a perder.

Terminaram-se os lamentos.
(In: O coração amarelo)
Em um contexto mais subjetivo, é interessante entender a mensagem que se encontra no poema desde o início, desde a primeira estrofe: não temos controle sobre o que poderia ter acontecido de bom ou de ruim em nossas vidas no passado. O que é externo a nós, não controlamos. Até nossas decisões, que achamos ter poder sobre elas, não imaginamos muitas vezes os rumos que elas podem tomar. Por isso as ilusões ou amarguras nem podem ser contadas, assim como também não podemos contabilizar aquilo que apenas nos rondou sem que pudéssemos perceber. A única certeza que temos do nosso passado é o que fizemos com ele, assim como suas consequências no tempo presente.
"Ai! o que não podia ser/ quando talvez podia ser": é pensar no que poderia ter acontecido se soubéssemos o que o presente nos aguardava. Teríamos feito diferente? Se conhecêssemos o futuro, negaríamos alguma de nossas convicções e certezas? Mudaríamos nossos passos? Talvez não.
Em um contexto mais político-social, podemos  refletir sobre o poema à luz das questões políticas com as quais se deparou Pablo Neruda na época da instauração do regime militar no Chile, o qual ele não aprovou e consequentemente foi perseguido por suas convicções de cunho mais populistas, em defesa mesmo do povo e contrário às injustiças.
No fim das contas, independente do que poderia ter acontecido ou não, de nossas decisões terem sido acertadas ou não no passado, não nos cabe agora lamentar, pois "tantas rodas sacudiram a estrada do destino que já não há nada a perder." E sim, bola pra frente pois "terminaram-se os lamentos."


domingo, 26 de fevereiro de 2017

O duelo - Anton Tchékhov

( Barueri, SP: Manole/Amarilys, 2011)

"E o que é a raça humana? Uma ilusão, uma miragem..." (p.87)

Aqui abro espaço para a leitura de um clássico; não só a obra, mas o autor também. Na minha lista pessoal de clássicos, o russo Anton Tchékhov é presença eterna e seus textos são sempre revisitados. A seu respeito, o escritor e crítico russo Vladimir Nabokov nos diz que ele é um daqueles autores de "fôlego curto", que não se permitem textos muito compridos, no que eu concordo inteiramente; porém, há uma exceção com O duelo, uma novela literária de 21 capítulos. Ainda é um texto curto mas longo se comparado à maioria dos contos de Tchékhov.

Publicado em 1891 no formato de folhetim, O duelo possui uma história pautada no pensamento de uma corrente filosófica que estava bastante em voga na segunda metade do século XIX: o darwinismo social, que prega a seleção natural de seres humanos que poderão contribuir para o progresso social e da humanidade.

"[...] O que protegia a humanidade primitiva de tipos como Laiévski eram a seleção natural e a luta pela sobrevivência; agora a nossa cultura afrouxou a luta e a seleção e nós mesmos devemos cuidar da eliminação dos débeis e inaptos [...] " (p.52) 

Laiévski é essa pessoa jovem extremamente passional, inconstante, inconsequente e um funcionário público relapso e preguiçoso. Aliado à isso, vive há 2 anos com Nádia, mulher casada com quem fugiu de Petersburgo para uma cidadezinha litorânea na região russa do Cáucaso: eles fugiram pra viver um sonho de amor que fracassou. Apesar de sua personalidade e de suas ações não serem tão nobres, Laiévski tem a consideração e amizade de várias pessoas na cidade, como o médico Samóilenko. Porém é desprezado pelo zoológo Von Koren, jovem convicto de que pessoas como Laiévski deveriam ser exterminados do convívio social pois são fracos.

Nem as ponderações gentis e tolerantes de Samóilenko e nem as argumentações teológicas do jovem e alegre diácono Pobédov são capazes de minimizar o julgamento que Von Koren faz do caráter de Laiévski. Diante do desenrolar de outros fatos paralelos, e no auge do desespero de sua própria insatisfação - tanto consigo quando com o relacionamento com a companheira Nádia - Laiévski acredita que o melhor é ir embora e largar tudo pra trás. Mas como, se não tem dinheiro e deve muitas pessoas?

Ele vai até a casa de Samóilenko e ao encontrar Von Koren, inicia uma discussão que termina com a fatídica frase: "Eu vou me bater!" Ou seja: Laiévski propõe um duelo, no afã do momento, a seu desafeto, a fim de resolver logo suas diferenças.

Parece cômico se não fosse trágico, e essa é uma das características de que mais gosto em Tchékhov: a capacidade de fazer humor a partir da tristeza e da tragédia de seus personagens. Para leitores um pouco degenerados como eu, ler o texto tchekhoviano é como saborear um prato bem requintado. Fãs de Machado de Assis, como eu, também fatalmente se apaixonam pelo autor russo. Pra quem nunca leu um texto dele, sugiro começar pelos contos famosos "A dama com o cachorrinho" e "Vanka". Garanto que a partir daí a literatura russa ganhará espaço em sua vida, caro leitor.

"Não entendo como é possível se ocupar seriamente com bichinhos e vermezinhos, enquanto o povo está sofrendo." (p.77)

domingo, 12 de fevereiro de 2017

As sombras de Longbourn, de Jo Baker

(São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2014.)

O dia de lavar roupa era inadiável, mas ainda assim a lavagem semanal da roupa de cama e mesa da casa era uma perspectiva desalentadora para Sarah. O ar estava gélido às quatro e meia da manhã, quando ela começou a trabalhar. [...] Seria um longo dia de labuta, e aquilo era só o começo. (p.13)

Me interessei em ler As sombras de Longbourn justamente porque seu enredo retoma um de meus romances favoritos de todos os tempos: Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Mas retoma de um jeito diferente, que não pretende distorcer nenhum dos fatos que nós, que já lemos o famoso romance de Austen, conhecemos tão bem; não, não. As sombras retoma o mesmo enredo sob o ponto de vista da criadagem, principalmente de Sarah, a jovem empregada da família Bennett – família esta dona da propriedade Longbourn e pertencente à pequena aristocracia rural.

Órfã, Sarah foi levada ainda criança para trabalhar para os Bennett – foi acolhida pela governanta / cozinheira da casa, a sra. Hill, e pelo cocheiro, sr. Hill, ambos casados e que sempre a trataram como filha. Apesar da jornada diária de trabalho que logo lhe foi imposta e à qual cresceu acostumada, Sarah sempre soube que ali era o melhor lugar para ela, pois tinha abrigo, comida e compartilhava das gentilezas das senhoritas Bennett, principalmente de Elizabeth.

Porém, sua convicção é abalada quando seus patrões contratam o jovem e calado James Smith, para trabalhar como lacaio e ajudar o já cansado sr. Hill. Smith surge do nada procurando por emprego e ali encontra não só acolhimento mas também a simpatia de Sarah.

Dentre os vários percalços que se desenrolarão sob o olhar da jovem empregada, no que diz respeito às vidas de seus patrões, ela mesma terá que amadurecer e perder a ingenuidade, inclusive se perguntando: servir aos outros é realmente a que se resumirá toda sua vida? E quanto ao amor? Ela também não será merecedora, tanto quanto Jane e Elizabeth?

Ler As sombras permite conhecer o universo da criadagem de fins do século XVIII, tanto aquela que habitava o mundo dos Bennett quanto a que cercava a grande aristocracia, representada pelos senhores Bingley e Darcy (futuros maridos das primogênitas Bennett).

Por meio de suas pesquisas (até porque se declara megafã de Austen), a autora Jo Baker reconta Orgulho e Preconceito do backstage: por meio de uma linguagem fluida e gostosa, somos transportados para as pequenas alegrias e desejos assim como os infortúnios e angústias de pessoas que deviam passar despercebidas da rotina diária de seus amos.

Viver assim, inteiramente à mercê dos caprichos e das fantasias de outras pessoas, ela pensou, não era viver. (p.229)


domingo, 29 de janeiro de 2017

Flores Azuis - Carola Saavedra

(São Paulo: Companhia das Letras, 2008)

Sempre é possível perder o que não se tem, sempre é possível afastar-se mais ainda, a possibilidade ilimitada da falta. (p.45)

Pois vamos lá: mais um romance contemporâneo na resenha, meus amores. E de uma autora, sim. A Carola Saavedra (1973-   ) nasceu no Chile mas depois veio com a família pro Brasil aos 3 anos de idade. Além de ter outras obras publicadas, ela também tem um site onde fala sobre seus textos, processo de criação e sobre a recepção crítica deles, além de veicular entrevistas etc. Se você quiser conhecê-la um pouco mais, é só clicar aqui.

Duas coisas me chamaram a atenção em Flores Azuis: o estilo de Saavedra é cru e direto, o que rechaça logo de cara essa história de que existe uma tal de "escrita feminina"; se eu não soubesse que o autor do romance era uma mulher, eu acharia que era um homem. De verdade. E aí chegamos no segundo ponto: a construção da personagem Marcos, que desnuda por completo toda a figura do macho e as expectativas femininas em torno do homem moderno.

Vamos à história: Marcos acabou de se separar da esposa e, ao se mudar pra um apartamento, tem que se adaptar à nova vida de solteiro - além de demonstrar inabilidade paterna em lidar com a filha de 3 anos, Manuela, quando a menina vai passar os fins de semana com ele. Um dia Marcos começa a receber cartas de uma mulher, que assina como A.; uma carta por dia, cartas de uma mulher abandonada pelo companheiro nas quais tenta narrar e rememorar cada pedaço de seu relacionamento na expectativa de que seu amado retorne.

Obviamente que as cartas não são pra Marcos, e logo ele se pergunta quem foi o morador do apartamento anterior à ele e se dispõe a tentar rastrear esse ex-morador assim como a autora das cartas. É que ao viver uma rotina aparentemente sem sentido e vazia, Marcos começa a ansiar pela chegada desses escritos íntimos - eles vão dar um novo colorido, ainda que meio estranho, à vida dele. Marcos quer conhecer esse casal dilacerado pela violência. Sim, pois se você achou que encontraria aqui uma história de amor, se enganou. Flores Azuis retrata muito mais a falência das relações entre homem e mulher, que não conseguem se entender pois nenhuma das partes alcança as expectativas do parceiro a contento. E nesse aspecto é que a linguagem do narrador se mostra crua e sem rodeios.

Um homem recém-separado precisa de uma mulher com um mínimo de compreensão. [...] e que o deixe em paz quando a solidão se faz novamente indispensável. (p.49)

A estrutura de Flores Azuis me encantou pois é parcialmente epistolar - e aí não há nada de novo, pois romances epistolares (histórias narradas por meio de cartas trocadas entre os personagens) existem na literatura desde o século XVIII. Os meus preferidos são os famosos As ligações perigosas (1782), do francês Chordelos de Laclos, e Lady Susan (1794), da minha megadiva inglesa Jane Austen. Mas resgatar esse tipo de estrutura em um romance brasileiro contemporâneo me parece bem interessante, para não dizer inusitado.

Quero adverti-lo/la que você vai passar uns bons dias ruminando os caquinhos dos seus pensamentos depois de ler Flores Azuis (vai ler rápido como eu, com certeza); sim, você sofrerá um belo impacto. E depois desse impacto, já que estamos falando de cartas e relacionamentos, indico que você assista o lindíssimo Possessão (2002); dá uma olhada aqui no trailer do You Tube (desculpa, só encontrei em inglês ;)