Um blog para mulheres inteligentes e empoderadas pelo conhecimento!

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"Interior com menina que lê". Óleo sobre tela de Henrique Bernardelli.1886.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Outra licença poética: Sylvia Plath


A poeta norte-americana Sylvia Plath (1932-1963) é um daqueles intelectuais não muito citados em aulas ou compêndios canônicos...Talvez por ser mulher...Talvez por trabalhar com temas tabus para a sociedade: a morte, o suicídio, a crítica à hipocrisia.... Com uma linguagem extremamente honesta e ferina, ainda que simbólica e hermética, Plath conquistou em vida um breve reconhecimento pois encontrou dificuldade para publicar seus escritos - os editores não gostavam de sua temática e de seu estilo. Após a morte, aos 32 anos, seus poemas ganharam fama e respeito, colocando-a de vez nos debates dos meios acadêmicos.


Ela sempre foi uma criança precoce; muito inteligente, escrevia desde os 8 anos, colocando no papel suas dores e inquietações...Perdeu o pai cedo também e foi criada pela mãe em uma cidadezinha americana bem burguesa; teve a melhor educação que uma garota da década de 1950 poderia ter, mas ao invés de se reduzir à vida fútil e caseira do subúrbio, opta por ir à faculdade, o Smith College, onde se forma com louvor em 1955. Por isso ganha uma bolsa de estudos ( a Fullbright Scholarship) para ir à Universidade de Cambridge, na Inglaterra; sua estadia lá lhe rende não só o amadurecimento poético, mas também um casamento com o atormentado e egocêntrico poeta inglês Ted Hughes.


Foi paixão imediata...foi um encontro entre pessoas da mesma espécie...Ted foi a pessoa que mais incentivou Sylvia a escrever, a colocar pra fora seus sentimentos. Tiveram 2 filhos... a sintonia entre os dois era impressionável, segundo amigos do casal. Mas não foi o bastante para que ficassem juntos. A personalidade maníaco-depressiva de Sylvia não se conformou com as bebedeiras e as traições de Ted; a eterna necessidade do marido de ser o centro das atenções lhe consumiu de tal forma que Sylvia sucumbiu: após tentar inutilmente reatar um casamento esfacelado, e consequentemente ser rejeitada, ela se suicida inalando gás de cozinha... 


Ariel não é um livro para leitores inexperientes. Nem para leitores com tendência à depressão.  Foi a última produção de Plath, publicada em 1965 por Ted Hughes, que o fez para se eximir de qualquer acusação da sociedade; sim, pois muitos o condenaram por levá-la ao suicídio. No entanto, ao lermos a biografia e os poemas de Plath percebemos que seu tormento vem de muito cedo...Pertencente a uma geração de poetas chamada de Confessional Poets, como Robet Lowell - outro atormentado - só a entendemos plenamente se tivermos contato com sua história pessoal: a não-aceitação da morte do pai, 2 tentativas de suicídio, passagens por hospitais psiquiátricos, a relação de amor e ódio com Ted, tudo isso justifica o uso de termos mórbidos e da linguagem direta e irônica. Sylvia Plath não temia a morte; e ela gostava de desafiar a todos. Por isso deixo hoje com vocês o eterno e famoso Lady Lazarus...em que o eu lírico conta sua história sofrida....desafia e vence a morte no final...ressuscitando:

Tentei outra vez. 
Um ano em cada dez 
Eu dou um jeito —

Um tipo de milagre ambulante, minha pele 
Brilha feito abajur nazista, 
Meu pé direito

Peso de papel,
Meu rosto inexpressivo, fino
Linho judeu.

Dispa o pano 
Oh, meu inimigo. 
Eu te aterrorizo? —

O nariz, as covas dos olhos, a dentadura toda? 
O hálito amargo 
Desaparece num dia.

Em muito breve a carne
Que a caverna carcomeu vai estar
Em casa, em mim.

E eu uma mulher sempre sorrindo.
Tenho apenas trinta anos.
E como o gato, nove vidas para morrer.

Esta é a Número Três. 
Que besteira 
Aniquilar-se a cada década.

Um milhão de filamentos.
A multidão, comendo amendoim,
Se aglomera para ver

Desenfaixarem minhas mãos e pés —
O grande striptease. 
Senhoras e senhores,

Eis minhas mãos
Meus joelhos.
Posso ser só pele e osso,

No entanto sou a mesma, idêntica mulher. 
Tinha dez anos na primeira vez. 
Foi acidente.

Na segunda quis
Ir até o fim e nunca mais voltar.
Oscilei, fechada

Como uma concha do mar.
Tiveram que chamar e chamar
E tirar os vermes de mim como pérolas grudentas.

Morrer
É uma arte, como tudo o mais.
Nisso sou excepcional.

Desse jeito faço parecer infernal. 
Desse jeito faço parecer real. 
Vão dizer que tenho vocação.

E muito fácil fazer isso numa cela. 
É muito fácil fazer isso e ficar nela. 
É o teatral

Regresso em plena luz do sol
Ao mesmo local, ao mesmo rosto, ao mesmo grito
Aflito e brutal:

"Milagre!"
Que me deixa mal.
Há um preço

Para olhar minhas cicatrizes, há um preço 
Para ouvir meu coração —
Ele bate, afinal.

E há um preço, um preço muito alto 
Para cada palavra ou cada toque 
Ou mancha de sangue

Ou um pedaço de meu cabelo ou de minhas roupas. 
E aí, Herr Doktor. 
E aí, Herr Inimigo.

Sou sua obra-prima,
Sou seu tesouro,
O bebê de ouro puro

Que se funde num grito.
Me viro e carbonizo.
Não pense que subestimo sua grande preocupação.

Cinza, cinza —
Você fuça e atiça.
Carne, osso, não há mais nada ali —

Barra de sabão, 
Anel de casamento, 
Obturação de ouro.

Herr Deus, Herr Lúcifer
Cuidado.
Cuidado.

Saída das cinzas
Me levanto com meu cabelo ruivo
E devoro homens como ar.



Para quem quiser conhecer um pouco sobre Plath, assista ao filme que vale a pena!


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