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"Interior de escola árabe em Constantina". Grafite e aquarela sobre papel de Theodore Chasseriau.1846.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

The Canterbury Tales & a história da mulher de Bath


Os Contos de Canterbury (The Canterbury Tales) é uma obra da literatura medieval inglesa, de Geoffrey Chaucer, que permanece meio inacabada. Pode-se dizer que antes de William Shakespeare dar uma guinada na língua e literatura inglesas no século XVI, quem revolucionou primeiro, no século XIV,  foi Chaucer. É ele quem resgata a beleza e a poética da língua inglesa através de seus textos - tal beleza esquecida após 3 séculos de dominação do francês e do latim na corte. E o faz da seguinte forma: na obra, um grupo de pessoas segue para uma peregrinação até a catedral da cidade religiosa de Canterbury; porém, para passar o tempo pois a viagem é longa, é proposto ao grupo que cada um conte histórias. Chaucer tem a preocupação de não dar nomes aos personagens e apenas os identifica segundo suas ocupações na sociedade medieval; deste modo temos o cavaleiro, o mercador, o moleiro, o vigário, o médico etc.


Mas a história que eu acho bem interessante, para não dizer inusitada, é aquela contada pela "mulher de Bath" - no grupo ela representa as mulheres viúvas; ao herdar a fortuna dos maridos que teve, torna-se uma poderosa comerciante da cidade litorânea de Bath, gozando desta forma de uma certa independência, coisa rara para a época...Conto agora para vocês a história da Dama Repugnante, ou como se diz em inglês medieval, The Loathly Lady:

 

Nos tempos do rei Arthur, um de seus cavaleiros não resistiu à beleza de uma donzela e raptou-a; tal ato era considerado reprovável e punido com a pena de morte, mas a rainha Guinevere resolveu interferir e pediu ao rei que deixasse que ela e suas damas de companhia julgassem o cavaleiro e escolhessem a pena mais justa. A rainha propõe uma alternativa à pena de morte: diz ao cavaleiro que ele saia à procura da resposta para a seguinte pergunta: o que as mulheres mais desejam na vida? Ele tem 1 ano e 1 dia para cumprir sua missão. 


Desnorteado, o rapaz aceita a tarefa mas durante esse prazo ouve muitas respostas diferentes sobre o que as mulheres mais desejam: algumas querem o amor, outras o dinheiro, outras a beleza, outras a glória. No fim do prazo, já no caminho de volta à corte, e sem chegar a uma conclusão, o cavaleiro se depara com várias jovens dançando na floresta. À medida que se aproxima, observa que as jovens se afastam restando apenas uma velha feia e repugnante. Ele se dirige a ela contando seu suplício e a senhora lhe dá a tão sonhada resposta, mas não sem antes firmar um acordo: ela lhe pedirá algo que ele deve fazer, algo humanamente possível. O rapaz aceita, ambos seguem juntos para a corte e lá o cavaleiro reproduz, em alto e bom som, o que desejam as mulheres: mandar em seus maridos!


E o que a velha pede em troca? Que o cavaleiro se case com ela! Ele lhe oferece dinheiro, porém ela diz que só quer amor....Eles se casam e na noite de núpcias, revoltado, o rapaz humilha sua esposa dizendo que agora está desgraçado por ter se casado com uma mulher horrível e ainda por cima de sangue plebeu...Mas aí entra a inteligência da mulher: a velha diz que ele, que se diz tão nobre, age tão indignamente; que a nobreza está nos gestos e no caráter e não nas origens; e que dali em diante ele tem duas opções: tê-la como esposa fiel e bondosa porém velha e feia, ou tê-la como uma mulher bela porém estúpida e inconsequente...


E para nossa surpresa, o cavaleiro diz que a esposa deve escolher o que ela acha mais correto para ambos rsss Como a mulher é uma fada, ela escolhe ficar bela e bondosa para o marido...e os dois vivem felizes para sempre em harmonia - mas só porque ele resolve obedecê-la! Agora me digam se essa história não é bem ousada para a época, hein? É por isso que admiro Chaucer: no meio de mais de 80 histórias, ele reservou uma para exaltar a inteligência e o poder de persuasão femininos...em plena Idade Média!


  

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