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"Interior de escola árabe em Constantina". Grafite e aquarela sobre papel de Theodore Chasseriau.1846.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Licença poética: Gregório de Matos

(1636-1696)

Gregório de Matos Guerra é mais conhecido pelo apelido de Boca do Inferno por seus poemas de cunho satírico nos quais critica principalmente os desmandos políticos e as corrupções religiosas, tudo relacionado a Salvador (BA), cidade em que nasceu. Pertencente ao período barroco, em que o homem deveria tentar equilibrar a dualidade prazer terreno x dever religioso, Matos se destaca pelo inteligente uso do jogo de palavras e de ideias ao escarnecer das hipocrisias da sociedade:

Neste mundo é mais rico o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
Com sua língua, ao nobre o vil decepa:
O velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa:
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser papa. [...]

Influenciado pelos poetas espanhóis Góngora, Quevedo e Calderón (a origem da estética barroca está na Espanha, por conta do movimento religioso Contra-Reforma), Gregório de Matos acaba sendo perseguido pelas autoridades locais baianas e é degredado para outra colônia portuguesa, Angola. Lá advoga por vários anos até conseguir permissão para voltar ao Brasil, passando a residir em Recife, onde morre. Apesar de ter sua obra dividida nas temáticas religiosa, satírica e lírico-amorosa, Matos tem alguns poemas de cunho filosófico e este aqui é meu preferido, por descrever sua dificuldade de pertencimento ao mundo em que vivia. Falar o que se pensa tem seu preço - a perseguição e a incompreensão dos outros - de modo que é mais fácil agir como a maioria...Ao ler-se o poema, percebe-se a amargura do poeta em ter que reprimir seus ideais...

Carregado de mim ando no mundo, E o grande peso embarga-me as passadas, Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo. O remédio será seguir o imundo Caminho, onde dos mais vejo as pisadas, Que as bestas andam juntas mais ornadas, Do que anda só o engenho mais profundo. Não é fácil viver entre os insanos, Erra, quem presumir, que sabe tudo, Se o atalho não soube dos seus danos. O prudente varão há de ser mudo, Que é melhor neste mundo em mar de enganos Ser louco cos demais, que ser sisudo.


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