Um blog para mulheres inteligentes e empoderadas pelo conhecimento!

Um blog para mulheres inteligentes e empoderadas pelo conhecimento!
"Interior de escola árabe em Constantina". Grafite e aquarela sobre papel de Theodore Chasseriau.1846.

domingo, 30 de julho de 2017

Orlando - Virginia Woolf

Resultado de imagem para orlando virginia woolf
(São Paulo: Ed. Landamark, 2013)

A mudança de sexo, embora alterasse seu futuro, nada fez para alterar sua identidade. Seu rosto permanecia, como provam os relatos, praticamente o mesmo. (p.67)

Olá meus leitores! Como foram de férias? Recheadas de leituras e aventuras, eu espero né ;) ? Já fazia um tempo que eu estava com vontade de ler Orlando (Orlando: A Biography - 1928), da autora inglesa Virginia Woolf, e nesse mês consegui. Não por ser, eu acho, a única obra que ainda não tinha lido dela, mas porque procurava uma edição que valesse a pena. E essa aqui, da editora Landmark, é bilíngue, então pude ler o texto em português e inglês.

Os críticos em geral dizem que Orlando é a obra que colocou Woolf no patamar de importância literária na Inglaterra, muito mais do que Mrs. Dalloway (meu preferido e publicado em 1925). E entende-se a razão. Orlando é um nobre aristocrata, bem rico, que vive plenamente o período elisabetano, período este caracterizado por ter a rainha Elizabeth I no poder. É o Renascimento inglês, considerado a época de ouro das artes e da economia inglesa (época de Shakespeare e da descoberta do "Novo Mundo"). Pois bem. Orlando possui todas as benesses de um jovem de seu tempo - favores reais, mulheres a seus pés e beleza. Por acreditar que possui tudo, inclusive o amor de todos, ele crê que sua paixão por Sacha, uma nobre russa, tornará sua vida completa. Só não estava contando que a moça só queria se divertir com ele, afinal de contas, para ela era apenas diversão.

A desilusão no amor leva ao descrédito nas pessoas dali em diante, e por isso Orlando resolve se trancar para sempre em sua mansão no campo. Resolve também terminar de escrever seu poema "O Carvalho", pois como um bom aristocrata Orlando amava a poesia e queria também ser reconhecido por sua inteligência e louvor às artes. Ele pede que o poeta Nicholas Greene, considerado "o gênio", leia seu manuscrito, porém este escreve uma sátira ridicularizando a figura de Orlando e banalizando a pretensão do jovem de ser reconhecido como um bom poeta. Então, totalmente arrasado, Orlando aceita ser embaixador em Constantinopla, e é lá que se opera a coisa mais fantástica da história: ele dorme por sete dias, como se entrasse em um estado de coma, e após acordar descobre que seu sexo mudou - Orlando era agora uma mulher!

Como seria sua vida dali pra frente? Mudaria sua essência, seu modo de pensar, já que seu sexo mudou? Orlando, o romance, é filho do século XX pois coloca em discussão a importância da mulher na sociedade, questionando essa figura tão subestimada. Mas não somente isto. A narrativa de Woolf é irônica, obriga o leitor a participar do discurso, e o narrador da história se apresenta como biógrafo da vida de Orlando dizendo que sabe tudo mas ao mesmo tempo fica se explicando por não conhecer detalhes ou razões para as atitudes do rapaz. É um biógrafo fajuto, que ao invés de afirmar, duvida. 

E muito mais o romance Orlando nos ensina, principalmente aos profissionais da área de Letras: o tempo todo o narrador paga um lindo tributo à importância da arte e da poesia no mundo; muitas vezes o narrador dá uma lição de história de literatura inglesa e de crítica literária também, o que torna o romance quase que uma metaficção.

Imagino as dúvidas que devem ter dilacerado a mente brilhante da autora ao decidir abordar, sendo mulher, temas tão difíceis para as primeiras décadas do século XX. E olha que ela era até bem aceita nos círculos intelectuais londrinos - e tinha total apoio do marido, Leonard Woolf, para se entregar à escrita. Ele era seu editor e ela confiava completamente nele. É por isso que adoro tanto os romances e os pensamentos de Virginia Woolf: eles revelam  a mulher que só agora, em pleno século XXI, estamos conseguindo enxergar - como um ser humano.

Sobre a natureza da poesia em si, Orlando só descobriu que era mais difícil de vender que a prosa, e embora os versos fossem mais curtos, levavam mais tempo para serem escritos. (p. 44)


domingo, 9 de julho de 2017

Cazuza - Viriato Correa. Resenha crítica de *Caio Carvalho.

Download Cazuza  - Viriato Correa    em ePUB mobi e pdf

- Pergunta você o que é o Brasil? É tudo que temos feito em prol do progresso, da moral, da cultura, da liberdade e da fraternidade. O Brasil não é o solo, o mar, o céu que tanto cantamos. É a história de que não fazemos caso nenhum.(p.185)

Neste texto, objetivamos levantar uma análise crítica a respeito da clássica obra Cazuza (1938) do aclamado escritor maranhense Viriato Correa. A trama nos traz a história do garoto que dá nome ao livro. Em um tom memorialístico ele nos conta a sua infância em uma narrativa dividida em três partes, nas quais são alterados os personagens, o espaço e até a temática expressa. Seguindo uma ordem cronológica, a infância do menino é situada no livro, agregando a isso sua perspectiva diante do que ele presencia.

Ao ler Cazuza, é impossível caracterizá-lo como um livro homogêneo referente à sua temática, pois a diversidade de traços que compõe o estilo do autor, atrelado ao imaginário da época é gritante. Dessa forma, pontuamos na obra uma reflexão específica: o patriotismo. O narrador nos traz, especialmente na parte 3, um relato do desejo que ele tem de que o brasileiro assuma sua verdadeira identidade, fazendo uma crítica aos que cantam a brasilidade de uma forma equivocada e contida, ao passo que defende que ela é muito mais que isso.

A culpa não é de vocês, é de quem lhes ensina noções falsas. Para muita gente, patriotismo é elogiar as nossas coisas mesmo quando elas não merecem elogios. É um erro. O verdadeiro patriotismo é aquele que reconhece as coisas ruins do seu país e trabalha para melhorá-las. (p.209)

A Literatura é um dos mecanismos de maior influência quando se quer valorizar a pátria. Na tese Literatura como Missão (1981), de Nicolau Sevcenko, o autor coloca a Literatura como uma forte arma que ajuda o leitor a refletir sobre os eixos sociais que compõem o contexto em que o indivíduo está inserido. Para Sevcenko, o texto literário é um documento de ação político-social, que denuncia as mazelas vividas e sugere possíveis correções.

Viriato Correa usa e abusa desse cunho social que a Literatura possui pois nos faz refletir sobre a forma com que o brasileiro percebia sua pátria e como esse brasileiro ensinava suas crianças.  O forte tom crítico do protagonista faz o leitor enxergar o patriotismo menos da perspectiva natural e mais do cunho identitário que os próprios brasileiros lutaram para que seu país possuísse.

Para além da questão patriótica, o livro retrata fielmente a cultura maranhense, além de nos fazer refletir a respeito do ensino formal nas escolas da época, do preconceito e desvalorização com a gente pobre - questões altamente sociais. Com uma linguagem concisa e diálogos rápidos, o leitor consegue devorar as 229 pág. bem rápido! Lembremos que acima de tudo, a leitura de Cazuza demonstra que Literatura não é apenas deleite; Literatura também é denúncia.

*Caio Carvalho é aluno do curso de Letras/Português da Universidade Estadual do Maranhão - UEMA, Campus Timon (MA).

domingo, 2 de julho de 2017

Wicked - Gregory Maguire

Resultado de imagem para wicked
(São Paulo: Ed.Leya, 2016)

A feitiçaria [...] não rasga, ela remenda. É síntese, em vez de análise. Gera o novo em vez de revelar o antigo. Nas mãos de alguém verdadeiramente qualificado [...] é Arte." (p.182)

Olá meus leitores, tudo bom? Depois de um mês festivo como junho (pelo menos pra nós aqui do Nordeste é assim!), ufa! chegamos em julho, mês de férias! E isso significa colocar o lazer em primeiro lugar, isto é, a leitura, né? Bom, vamos à uma gostosa indicação que serve pra todas as idades, especialmente os adolescentes!

Wicked (malvada/o em inglês) narra a história da vida cheia de preconceitos e dificuldades de Elfaba, antes de se tornar a famosa Bruxa Má do Oeste da terra encantada de Oz. Desde criança a moça tem que lidar com olhares desconfiados por conta de sua aparência meio sinistra: cor da pele esverdeada e uma magreza extrema contrastando com belos olhos e cabelos negros e sedosos. Seu pai, Frex, um pastor que prega o monoteísmo, gosta de exibi-la a seus fiéis seguidores como prova da misericórdia de Deus, já que em nenhum momento Elfaba demonstra ter má índole. Sua mãe, Melena, rejeita-a constantemente. 

Crescendo no ambiente pobre, rural e pantanoso da província de Quadling, sendo negligenciada por seus pais e seus dois irmãos, Nessarose e Casco, Elfaba se volta para a leitura - seu único prazer é adquirir mais e mais conhecimento. Assim ela chega à universidade e o destino faz com que divida o mesmo quarto com a burguesa Glinda, que mais tarde se tornará a Bruxa Boa do Norte. Apesar das diferenças profundas as duas se tornam amigas: Elfaba segue acreditando que sua essência é má, sempre questionando qual sua verdadeira missão. Já Glinda segue afirmando que a feitiçaria pode ajudar a trazer o bem a Oz, salvando o país das tiranias comandadas pelo famoso mágico.

Mas muitas coisas acontecem não só a Elfaba como a seus amigos, após os anos da universidade: eles aprendem que os atos tem consequências. Cada um tem seus ideais de vida colocados à prova, para testar se suas essências são de fato más ou boas. À medida que Elfaba, Glinda, Boq, Fiyero e Nessa assumem responsabilidades e dão um direcionamento a seus destinos, suas personalidades também se delineiam. E suas identidades se formatam em figuras de bruxas e homens da elite de Oz.

A temática principal da obra gira em torno dos conceitos de bem e mal, principalmente deste último, assim como as suas respectivas personificações. Wicked demonstra de forma crua como algumas facetas do mal se apresentam na sociedade: na escravização de mentes, na imposição de ideologias tirânicas, na hipocrisia e no silêncio condescendente que apóia o governo ilegítimo do mágico de Oz.

É lógico que eu sugiro que você leia logo em seguida (ou antes mesmo) o clássico da literatura infantil e juvenil O maravilhoso mágico de Oz (1900) do norte-americano L.Frank Baum: todos os elementos que estão nesta obra reaparecem em Wicked, como a menina Dorothy, seu cachorrinho Totó e os amigos que ela faz em Oz: o homem de lata, o espantalho e o leão covarde. Ah! E vocês entenderão finalmente, assim como eu, a razão de os famosos sapatos prateados serem encantados! Garanto que a leitura será de fato maravilhosa!

"[...] Ou o mundo simplesmente se descortina aos seus olhos, repetidas vezes, assim que você está pronto para vê-lo de maneira diferente?" (p.255)



domingo, 18 de junho de 2017

No alto da ladeira de pedra - Carvalho Jr.

Resultado de imagem para no alto da ladeira de pedra
(São Paulo: Patuá, 2017)

"cadeira, óculos, agulha...

no alto da ladeira de pedra,
vô Quirola remenda
as redes de pesca. [...]" (p.51)

Olá leitores! Hoje é dia de poesia, meu assunto preferido...Chegou-me às mãos ainda em maio deste ano a obra poética do jovem autor caxiense Francisco de Assis Carvalho da Silva Jr - ou simplesmente Carvalho Jr., cidadão de Caxias - MA. O poeta é bastante conhecido por aqui e já possui um reconhecimento merecido para além da região dos Cocais, o que não me surpreende, uma vez que seus versos tem qualidade. E ter qualidade na arte poética não é apenas escrever poemas que falem ao coração. É ter riqueza de linguagem. É ter coragem de expressão. É saber ser significativo hoje e sempre. E Carvalho Jr. pode se gabar de reunir esses adereços.

O livro em si, enquanto objeto-poético, é bem convidativo: o layout e a disposição interna dos poemas, bem como a escolha das epígrafes na abertura de cada uma das partes do livro salta aos olhos. É gostoso de ver, e depois a leitura torna-se mais prazerosa ainda.

Quanto à temática, eu dividiria esta obra em dois momentos: primeiro temos poemas que nos ligam à infância, ao corpo-erótico, à solidão. Porque se conhecer e (re)conhecer sua essência é necessário; o medo e o silêncio são latentes, mas a coragem de viver é maior:

"teu nome é uma tejubina - libélula - borboleta
que dança os meus arco-íris da infância
nas armadilhas e incêndios de uma bolha de sabão." (p.30)

Em um segundo momento, o "índio fantasma da tribo Quirola" (que é como se define o eu poético) nos mostra um espaço muito bem traçado, com elementos que se voltam para a memória da cidade, com a denúncia recorrente de sua decadência e o descaso de seus habitantes; temos também o rio que perpassa tudo e todos e que, juntamente com o povo, tenta resistir às violências do cotidiano. É sempre interessante ler poetas que nunca se esquecem de sua função social. Porque a palavra bem dita tem força; ela se espalha e não se perde: 

"passa o rio como um cachorro magro...
tudo que bebe são assobios de socós
e a seca indiferença dos bocós." (p.39)

Finalizo por aqui, me permitindo dizer o que eu mais gosto nos poemas de Carvalho Jr.: é o uso da explosão de cores e de neologismos com que ele burila a palavra; sua concisão e ironia me agradam muito. Abusar da linguagem assim é um exercício que requer prática para não parecer óbvio. Porque, na verdade, como disse o poeta francês moderno Paul Valéry, o poema é uma espécie de máquina de produzir o estado poético através das palavras, muito embora não saibamos o efeito da ação dessa máquina a longo prazo em nossos espíritos. O efeito dessa "máquina" em mim hoje é de êxtase e de contemplação. Só posso me emocionar com o que é verdadeiro para meus olhos:

"pare,
olhe,
escute:
nem o trem
nem a fome 
do mundo
passaram 
ainda."(p.27)


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Ainda estou aqui - Marcelo Rubens Paiva

Resultado de imagem para Ainda estou aqui
(Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2015)

Tentava, a todo custo, ser tratada não como uma doente, uma demente, mas como um ser igual a todo mundo, que, com a idade, é traído pela memória, fica velho, fica esquecido, fica esclerosado, velhinha.(p.27)

Olá meus leitores da vida, tudo bom? Vamos a mais uma resenha de uma ótima leitura! Ainda estou aqui (2015), romance do Marcelo Rubens Paiva, vocês podem adquirir sem medo aqui.

Por meio de um relato bem memorialista porém marcado pela objetividade de fatos verídicos, em que ficção e compromisso com a verdade se entrelaçam fortemente, o narrador tem como ponto de partida a descoberta de que sua mãe possui mal de Alzheimer. Por iniciativa própria, ele aceita ser seu tutor e, consequentemente, questiona como uma mulher como Eunice Paiva em breve não se lembrará mais de sua vida. 

E que vida, hein? Poucas pessoas podem se gabar de terem chegado aos 77 anos de forma tão ativa quanto Eunice, que teve que se reinventar aos 41 anos, com 5 filhos pra criar, no auge da década de 1970 e do regime militar; que teve que aceitar que o suposto desaparecimento do marido Rubens Paiva, engenheiro e ex-deputado federal, na verdade, foi um assassinato perpetrado por torturadores do DOI.

 A revolta transmutou-se em uma luta na persistência de existir: a moça de ascendência italiana e que adorava ler, formada em Letras, resolveu fazer faculdade de Direito e refazer a vida, triste por dentro mas alegre por fora. Terminou de criar os filhos, driblou as questões burocráticas legais por não conseguir provar sua viuvez - já que o corpo de Rubens nunca foi encontrado, abraçou a causa do Direito Indígena nos anos 1980...ufa! Tem mais, muito mais.

Histórias como a de Eunice devem ser lidas para que nos lembremos que uma vida inteira ainda é pouco pra quem quer realizar tanto. Histórias que tem como pano de fundo o período negro do regime militar no Brasil devem ser resgatadas e discutidas sempre que possível, já que somos, em grande parte, um país sem memória, tanto para fatos longínquos quanto para os fatos recentes. Também pudera. Quem nos educou de fato nos ensinou a pensar, a lutar? Quem nos educou nos deu o conhecimento das verdades não-oficiais? Um pessoa sem memória a gente aceita, pois a doença é algo involuntário. O que não se aceita mesmo é um país sem memória; sem olhos para o passado.

Assim era o Brasil da ditadura: o órgão que deveria defender os índios defendia os fazendeiros que invadiam as terras indígenas; a polícia federal, que deveria defender o direito do cidadão, defendia o Estado e o poder, que se sentia ameaçado pelo cidadão. (p.205)

sábado, 20 de maio de 2017

3 obras literárias que viraram ótimas adaptações cinematográficas

Olá meus amores-leitores da vida!!! Tudo bom com vocês neste mês de maio? Espero que sim!!! Na última segunda-feira (15/05/2017) saiu nossa participação no canal Cinetê, do querido youtuber Renan Ferreira - fizemos lá um gostoso bate-papo sobre literatura e a sétima arte. Indicamos 3 obras literárias que tiveram ótimas adaptações cinematográficas, vocês sabem que amo cinema né?


O filme "O vestido" tem a história baseada no poema "Caso do vestido" de Carlos Drummond de Andrade. Uma esposa é totalmente apaixonada pelo marido e acredita firme e forte no poder do amor e do casamento...até a chegada de uma "mulher do demo" que vem de fora e enfeitiça o marido da outra, usando um belo vestido. O que acontece no final? Leia o poema e depois assista o filme ;) 





O filme "Moça com brinco de pérola" é baseado no romance homônimo da autora norte-americana Tracy Chevalier. Olha o trailer aqui:




Por último mas não menos importante o meu preferido da vida! O filme "As horas" é baseado no enredo do romance também homônimo do autor norte-americano Michael Cunningham, que inclusive ganhou o maior prêmio literário dos EUA por essa obra em 1999, o prêmio Pulitzer. Olha o trailer do filme aqui:



Com exceção do Drummond, claro, os outros 2 autores ainda estão na ativa ;) Já assistiu ou já leu essas obras que indiquei? Comenta aqui no blog! P.S: meus ex alunos de Literatura de Língua Inglesa com certeza já fizeram um dos dois rsss....

quarta-feira, 26 de abril de 2017

"Você gosta de poesia?" - Sobre a Poesia Marginal ou a Geração Mimeógrafo



Resultado de imagem para poesia marginal


Você gosta de poesia? Se sim, deixe de lado seus pré conceitos sobre poesia, principalmente sobre poesia marginal. Não, ela não foi produzida por um bando de loucos sem rumo, sem eira nem beira, que só queriam bagunçar o cenário intelectual arrumadinho nos idos das décadas de 1960,1970 e começo de 1980. Não, eles não eram alienados. Eles queriam bagunçar, mas também queriam espaço e voz que não eram dados a quem queria uma terceira opção de expressão.

Em um contexto social complexamente bipolar, bipartidário, unilateral e pouco plural, dominado por frases de efeito como “ordem e progresso”, “ame-o ou deixe-o”, em que ou você era conservador e a favor do país e da família ou era comunista e guerrilheiro, contra a moral, os poetas marginais propunham novas experiências literárias; novas vivências; um novo caminho de existência, talvez, um caminho do meio no meio de poucas opções de ser.


O ser humano precisa de mais do que isso pra viver. A poesia é de todos, para todos. É um momento de comunhão de emoções, de doação de sentimentos variados, que não se limita a um pedaço de papel ou a um reconhecimento acadêmico. A poesia transborda do papel para virar música – pois um dia era lira e aqui volta a seu estado original; a poesia transborda em gestos e olhares com o público, pois qual o motivo de poetar sem ter alguém pra dialogar? Serei eu um poeta? Qualquer um pode ser poeta, produzir poesia, a palavra é minha, por que não? Por isso a pergunta é tão simples e ao mesmo tempo tão urgente: você gosta de poesia?

Apresento-lhes então Torquato Neto, Waly Salomão, Ana Cristina César, Cacaso, Chacal, Charles, Afonso Henriques Neto, Francisco Alvim, Paulo Leminsky. Marginais porque plurais; marginais porque espontâneos; marginais porque a literatura, na verdade, precisa de aventura e de loucura. Marginais porque a poesia não precisa de aprovação de um grupo seleto pra acontecer. O povo é onde minha poesia acontece. Ser poeta é ter atitude. O mundo é grande e minha poesia não se limita ao céu.

DEVENIR, DEVIR (WALY SALOMÃO)

Término de leitura
de um livro de poemas
não pode ser o ponto final.

Também não pode ser
a pacatez burguesa do
ponto seguimento.

Meta desejável:
alcançar o
ponto de ebulição.

Morro e transformo-me.

Leitor, eu te reproponho
a legenda de Goethe:
Morre e devém

Morre e transforma-te.   


Temos um grupo de performance em que fazemos intervenção poética: ler poemas para causar espanto e reflexão. Porque poesia é isso. É o nosso instante. E é o bastante.





domingo, 26 de março de 2017

A câmara sangrenta e outras histórias, de Angela Carter

Resultado de imagem para a camara sangrenta angela carter
(Porto Alegre: Ed. Dublinense, 2017)

Casado três vezes no decurso da minha própria breve vida com três graças diferentes, ele agora me convidara, como se para demonstrar o ecletismo de seu gosto, para integrar essa galeria de mulheres bonitas - eu, a filha da viúva pobre [...] (p.20)

Olá de novo meus amores leitores! Mais uma resenha literária maravilhosa que hoje trago para vocês: um conto da não menos maravilhosa autora inglesa Angela Carter e sua atualização dos clássicos contos de fadas. Atualização sim, pois Carter (re) conta algumas destas clássicas histórias populares valorizando a figura da mulher, promovendo assim um pensamento mais empoderado e forte sobre a figura feminina na sociedade.

Essa obra chegou pra mim neste mês de março pois sou assinante da Tag Experiências Literárias; já contei aqui em outro post que tenho gostado muito da seleção de livros que chegam mensalmente. Quem fez a indicação de A câmara sangrenta e outras histórias para nós, assinantes da TAG, foi a não menos maravilhosa escritora Marina Colasanti. Como o mês de março é "considerado" o mês da mulher, a proposta de leitura / discussão da obra segue essa linha mesmo: refletir sobre a força feminina na sociedade e perceber como nós, mulheres, podemos ser e somos agentes transformadores do nosso próprio destino.

Publicado em 1979, A câmara sangrenta e outras histórias "explora o tema do feminismo ao contrastar elementos tradicionais da ficção fantástica -que habitualmente descreve personagens femininas como frágeis e desamparadas - com protagonistas fortes e impositivas." (Revista da TAG, p.13)

Não conhecem Angela Carter? Indico essa obra aqui embaixo, ó, para começarem a ver um pouco do trabalho de pesquisa e seleção de contos populares que ela realizou, e como suas reflexões sobre o universo feminino foram e são importantes para a literatura:


Resultado de imagem para a menina do capuz vermelho e outras histórias
(São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011)

Carter é uma mulher de seu tempo: vivenciou as lutas e conquistas femininas a partir da década de 1960 e ela não se omitiu - deu voz bem alta a muitas personagens em suas narrativas, ao mesmo tempo em que se aprofundava no estudo, coleta e análise de contos populares ("contos de fadas") das mais diversas culturas. Segundo ela, o resgate dessas histórias nos revela que "o passado foi duro, cruel e especialmente hostil para as mulheres, por mais desesperados que tenham sido os estratagemas que usamos para fazer as coisas um pouco à nossa maneira." (2011, p.23).

Mas vamos à história de A câmara sangrenta? Aqui só falaremos deste conto, para que vocês fiquem com gostinho de quero mais e leiam os outros contos da obra de Carter. Ele é uma "repaginação" moderna do famoso conto de fadas Barba Azul, popularizado séculos antes por Charles Perrault. Carter traz a história narrada pela própria personagem, a mocinha virgem e pobre que aceita se casar com um homem rico e beeeem mais velho - ela é sua quarta esposa. Não há indícios de amor, mas de um grande desejo de posse, por parte do marido, e de curiosidade, por parte da jovem. Ela se atrai por esse mundo luxuoso e pela aparência viril e forte que aquele homem tem a lhe oferecer: por isso aceita casar-se.

Ele me beijou e colocou a mão imperativamente sobre o meu seio, por baixo da bainha de renda antiga [...] (p.31)

Ele a leva para seu castelo à beira do mar, na região francesa da Normandia, "isolado do continente pela maré durante metade do dia." (2017, p.25) Sim, era um castelo cujo acesso  para o continente se dava apenas quando a maré baixava; quando estava alta, o castelo ficava mesmo isolado. Após uma breve lua de mel e apresentação do imenso lugar à sua esposa, o marido lhe dá todas as chaves de todas as portas do castelo, fazendo porém a ressalva sobre uma delas em específico: "prometa-me que vai usar todas as chaves no anel exceto essa última que lhe mostrei." (p.38) E em seguida ele lhe diz que precisa fazer uma viagem de negócios de última hora.

Consumida pela curiosidade, a jovem, é claro, decide não só explorar o castelo como também entrar na câmara proibida: lá, descobre que é uma câmara de tortura mantida pelo marido, responsável pelas mortes de suas ex-esposas. E agora? Como ela fará para se desvencilhar deste casamento fadado à tragédia?

No famoso conto de fadas, Barba Azul é um homem rico e poderoso que propõe casamento a uma jovem pobre. Com isso, ela vê uma oportunidade dupla: sair do lar e ter compensação financeira. Mesmo impactada pelo aspecto feio da barba e sinistro mesmo de seu pretendente, ela se casa. Ele também lhe diz que ela pode desfrutar de tudo o que existe no castelo, com exceção de um quarto secreto. Mesmo assim, ela cede à curiosidade e adentra o recinto proibido, dando de cara com as atrocidades cometidas pelo marido contra suas esposas anteriores, que permaneciam degoladas e penduradas, tal qual um açougue.

Não vou contar o final das duas histórias - a clássica e a "repaginada" por Angela Carter, porque vale muito a pena a leitura de ambas. Mas devo dizer que fiquei muito feliz em ler o final de A câmara sangrenta: demonstra que realmente nós, mulheres, devemos sim ser solidárias umas com as outras. Somente um senso forte de irmandade e cumplicidade entre mulheres nos salvará de um mundo em que ainda se aceita toda e qualquer forma de violência masculina. Temos esperança de que um dia homens e mulheres se respeitem de tal forma que não precisem mais se enxergar com tantas diferenças.

Lancei um último olhar desesperado da janela e, como num milagre, vi um cavalo e seu cavaleiro galopando a uma velocidade vertiginosa ao longo da passagem [...] (p.64)

domingo, 5 de março de 2017

Pausa poética: "O tempo que não se perdeu", Pablo Neruda

(Porto Alegre: L&PM, 2010)

O TEMPO QUE NÃO SE PERDEU

Não se contam as ilusões

nem as compreensões amargas,
não há medidas pra contar
o que não podia acontecer-nos,
o que nos rondou como besouro
sem que tivéssemos percebido
do que estávamos perdendo.

Perder até perder a vida

é viver a vida e a morte
não são coisas passageiras
mas sim constantes, evidentes,
a continuidade do vazio,
o silêncio em que cai tudo
e por fim nós mesmos caímos.

Ai! o que esteve tão perto

sem que pudéssemos saber.

Ai! o que não podia ser

quando talvez podia ser.

Tantas asas circunvoaram

as montanhas da tristeza
e tantas rodas sacudiram
a estrada do destino
que já não há nada a perder.

Terminaram-se os lamentos.
(In: O coração amarelo)
Em um contexto mais subjetivo, é interessante entender a mensagem que se encontra no poema desde o início, desde a primeira estrofe: não temos controle sobre o que poderia ter acontecido de bom ou de ruim em nossas vidas no passado. O que é externo a nós, não controlamos. Até nossas decisões, que achamos ter poder sobre elas, não imaginamos muitas vezes os rumos que elas podem tomar. Por isso as ilusões ou amarguras nem podem ser contadas, assim como também não podemos contabilizar aquilo que apenas nos rondou sem que pudéssemos perceber. A única certeza que temos do nosso passado é o que fizemos com ele, assim como suas consequências no tempo presente.
"Ai! o que não podia ser/ quando talvez podia ser": é pensar no que poderia ter acontecido se soubéssemos o que o presente nos aguardava. Teríamos feito diferente? Se conhecêssemos o futuro, negaríamos alguma de nossas convicções e certezas? Mudaríamos nossos passos? Talvez não.
Em um contexto mais político-social, podemos  refletir sobre o poema à luz das questões políticas com as quais se deparou Pablo Neruda na época da instauração do regime militar no Chile, o qual ele não aprovou e consequentemente foi perseguido por suas convicções de cunho mais populistas, em defesa mesmo do povo e contrário às injustiças.
No fim das contas, independente do que poderia ter acontecido ou não, de nossas decisões terem sido acertadas ou não no passado, não nos cabe agora lamentar, pois "tantas rodas sacudiram a estrada do destino que já não há nada a perder." E sim, bola pra frente pois "terminaram-se os lamentos."


domingo, 26 de fevereiro de 2017

O duelo - Anton Tchékhov

( Barueri, SP: Manole/Amarilys, 2011)

"E o que é a raça humana? Uma ilusão, uma miragem..." (p.87)

Aqui abro espaço para a leitura de um clássico; não só a obra, mas o autor também. Na minha lista pessoal de clássicos, o russo Anton Tchékhov é presença eterna e seus textos são sempre revisitados. A seu respeito, o escritor e crítico russo Vladimir Nabokov nos diz que ele é um daqueles autores de "fôlego curto", que não se permitem textos muito compridos, no que eu concordo inteiramente; porém, há uma exceção com O duelo, uma novela literária de 21 capítulos. Ainda é um texto curto mas longo se comparado à maioria dos contos de Tchékhov.

Publicado em 1891 no formato de folhetim, O duelo possui uma história pautada no pensamento de uma corrente filosófica que estava bastante em voga na segunda metade do século XIX: o darwinismo social, que prega a seleção natural de seres humanos que poderão contribuir para o progresso social e da humanidade.

"[...] O que protegia a humanidade primitiva de tipos como Laiévski eram a seleção natural e a luta pela sobrevivência; agora a nossa cultura afrouxou a luta e a seleção e nós mesmos devemos cuidar da eliminação dos débeis e inaptos [...] " (p.52) 

Laiévski é essa pessoa jovem extremamente passional, inconstante, inconsequente e um funcionário público relapso e preguiçoso. Aliado à isso, vive há 2 anos com Nádia, mulher casada com quem fugiu de Petersburgo para uma cidadezinha litorânea na região russa do Cáucaso: eles fugiram pra viver um sonho de amor que fracassou. Apesar de sua personalidade e de suas ações não serem tão nobres, Laiévski tem a consideração e amizade de várias pessoas na cidade, como o médico Samóilenko. Porém é desprezado pelo zoológo Von Koren, jovem convicto de que pessoas como Laiévski deveriam ser exterminados do convívio social pois são fracos.

Nem as ponderações gentis e tolerantes de Samóilenko e nem as argumentações teológicas do jovem e alegre diácono Pobédov são capazes de minimizar o julgamento que Von Koren faz do caráter de Laiévski. Diante do desenrolar de outros fatos paralelos, e no auge do desespero de sua própria insatisfação - tanto consigo quando com o relacionamento com a companheira Nádia - Laiévski acredita que o melhor é ir embora e largar tudo pra trás. Mas como, se não tem dinheiro e deve muitas pessoas?

Ele vai até a casa de Samóilenko e ao encontrar Von Koren, inicia uma discussão que termina com a fatídica frase: "Eu vou me bater!" Ou seja: Laiévski propõe um duelo, no afã do momento, a seu desafeto, a fim de resolver logo suas diferenças.

Parece cômico se não fosse trágico, e essa é uma das características de que mais gosto em Tchékhov: a capacidade de fazer humor a partir da tristeza e da tragédia de seus personagens. Para leitores um pouco degenerados como eu, ler o texto tchekhoviano é como saborear um prato bem requintado. Fãs de Machado de Assis, como eu, também fatalmente se apaixonam pelo autor russo. Pra quem nunca leu um texto dele, sugiro começar pelos contos famosos "A dama com o cachorrinho" e "Vanka". Garanto que a partir daí a literatura russa ganhará espaço em sua vida, caro leitor.

"Não entendo como é possível se ocupar seriamente com bichinhos e vermezinhos, enquanto o povo está sofrendo." (p.77)

domingo, 12 de fevereiro de 2017

As sombras de Longbourn, de Jo Baker

(São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2014.)

O dia de lavar roupa era inadiável, mas ainda assim a lavagem semanal da roupa de cama e mesa da casa era uma perspectiva desalentadora para Sarah. O ar estava gélido às quatro e meia da manhã, quando ela começou a trabalhar. [...] Seria um longo dia de labuta, e aquilo era só o começo. (p.13)

Me interessei em ler As sombras de Longbourn justamente porque seu enredo retoma um de meus romances favoritos de todos os tempos: Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Mas retoma de um jeito diferente, que não pretende distorcer nenhum dos fatos que nós, que já lemos o famoso romance de Austen, conhecemos tão bem; não, não. As sombras retoma o mesmo enredo sob o ponto de vista da criadagem, principalmente de Sarah, a jovem empregada da família Bennett – família esta dona da propriedade Longbourn e pertencente à pequena aristocracia rural.

Órfã, Sarah foi levada ainda criança para trabalhar para os Bennett – foi acolhida pela governanta / cozinheira da casa, a sra. Hill, e pelo cocheiro, sr. Hill, ambos casados e que sempre a trataram como filha. Apesar da jornada diária de trabalho que logo lhe foi imposta e à qual cresceu acostumada, Sarah sempre soube que ali era o melhor lugar para ela, pois tinha abrigo, comida e compartilhava das gentilezas das senhoritas Bennett, principalmente de Elizabeth.

Porém, sua convicção é abalada quando seus patrões contratam o jovem e calado James Smith, para trabalhar como lacaio e ajudar o já cansado sr. Hill. Smith surge do nada procurando por emprego e ali encontra não só acolhimento mas também a simpatia de Sarah.

Dentre os vários percalços que se desenrolarão sob o olhar da jovem empregada, no que diz respeito às vidas de seus patrões, ela mesma terá que amadurecer e perder a ingenuidade, inclusive se perguntando: servir aos outros é realmente a que se resumirá toda sua vida? E quanto ao amor? Ela também não será merecedora, tanto quanto Jane e Elizabeth?

Ler As sombras permite conhecer o universo da criadagem de fins do século XVIII, tanto aquela que habitava o mundo dos Bennett quanto a que cercava a grande aristocracia, representada pelos senhores Bingley e Darcy (futuros maridos das primogênitas Bennett).

Por meio de suas pesquisas (até porque se declara megafã de Austen), a autora Jo Baker reconta Orgulho e Preconceito do backstage: por meio de uma linguagem fluida e gostosa, somos transportados para as pequenas alegrias e desejos assim como os infortúnios e angústias de pessoas que deviam passar despercebidas da rotina diária de seus amos.

Viver assim, inteiramente à mercê dos caprichos e das fantasias de outras pessoas, ela pensou, não era viver. (p.229)


domingo, 29 de janeiro de 2017

Flores Azuis - Carola Saavedra

(São Paulo: Companhia das Letras, 2008)

Sempre é possível perder o que não se tem, sempre é possível afastar-se mais ainda, a possibilidade ilimitada da falta. (p.45)

Pois vamos lá: mais um romance contemporâneo na resenha, meus amores. E de uma autora, sim. A Carola Saavedra (1973-   ) nasceu no Chile mas depois veio com a família pro Brasil aos 3 anos de idade. Além de ter outras obras publicadas, ela também tem um site onde fala sobre seus textos, processo de criação e sobre a recepção crítica deles, além de veicular entrevistas etc. Se você quiser conhecê-la um pouco mais, é só clicar aqui.

Duas coisas me chamaram a atenção em Flores Azuis: o estilo de Saavedra é cru e direto, o que rechaça logo de cara essa história de que existe uma tal de "escrita feminina"; se eu não soubesse que o autor do romance era uma mulher, eu acharia que era um homem. De verdade. E aí chegamos no segundo ponto: a construção da personagem Marcos, que desnuda por completo toda a figura do macho e as expectativas femininas em torno do homem moderno.

Vamos à história: Marcos acabou de se separar da esposa e, ao se mudar pra um apartamento, tem que se adaptar à nova vida de solteiro - além de demonstrar inabilidade paterna em lidar com a filha de 3 anos, Manuela, quando a menina vai passar os fins de semana com ele. Um dia Marcos começa a receber cartas de uma mulher, que assina como A.; uma carta por dia, cartas de uma mulher abandonada pelo companheiro nas quais tenta narrar e rememorar cada pedaço de seu relacionamento na expectativa de que seu amado retorne.

Obviamente que as cartas não são pra Marcos, e logo ele se pergunta quem foi o morador do apartamento anterior à ele e se dispõe a tentar rastrear esse ex-morador assim como a autora das cartas. É que ao viver uma rotina aparentemente sem sentido e vazia, Marcos começa a ansiar pela chegada desses escritos íntimos - eles vão dar um novo colorido, ainda que meio estranho, à vida dele. Marcos quer conhecer esse casal dilacerado pela violência. Sim, pois se você achou que encontraria aqui uma história de amor, se enganou. Flores Azuis retrata muito mais a falência das relações entre homem e mulher, que não conseguem se entender pois nenhuma das partes alcança as expectativas do parceiro a contento. E nesse aspecto é que a linguagem do narrador se mostra crua e sem rodeios.

Um homem recém-separado precisa de uma mulher com um mínimo de compreensão. [...] e que o deixe em paz quando a solidão se faz novamente indispensável. (p.49)

A estrutura de Flores Azuis me encantou pois é parcialmente epistolar - e aí não há nada de novo, pois romances epistolares (histórias narradas por meio de cartas trocadas entre os personagens) existem na literatura desde o século XVIII. Os meus preferidos são os famosos As ligações perigosas (1782), do francês Chordelos de Laclos, e Lady Susan (1794), da minha megadiva inglesa Jane Austen. Mas resgatar esse tipo de estrutura em um romance brasileiro contemporâneo me parece bem interessante, para não dizer inusitado.

Quero adverti-lo/la que você vai passar uns bons dias ruminando os caquinhos dos seus pensamentos depois de ler Flores Azuis (vai ler rápido como eu, com certeza); sim, você sofrerá um belo impacto. E depois desse impacto, já que estamos falando de cartas e relacionamentos, indico que você assista o lindíssimo Possessão (2002); dá uma olhada aqui no trailer do You Tube (desculpa, só encontrei em inglês ;)






domingo, 15 de janeiro de 2017

Pausa poética: Soneto 121 - William Shakespeare

Resultado de imagem para shakespeare

Soneto 121

É melhor ser vil do que vil considerado,
Quando não se é, e ser repreendido por sê-lo,
E o prazer justo perdido, que é tão caro
Não por nós, mas pela opinião alheia.
Por que a visão falsa e adulterada dos outros
Deve julgar o meu sangue ardente?
Ou minhas fraquezas, enquanto o mais fraco espia,
Que por eles seja mau o que acredito bom?
Não, eu sou quem sou, e eles que julgam
Meus erros reconhecem em mim apenas os deles;
Posso ser reto, embora eles sejam tortos;
Diante desses pensamentos, meus atos se ocultam,
A menos que esse mal geral que eles mantêm:
Todos são maus e em sua maldade reinam.
(trad. aqui)

Pra quem não sabe, Shakespeare escreveu 154 sonetos, dos quais alguns são bens famosos, dada a extrema consonância com os tempos tortos em que vivemos. E o soneto 121 é um deles - que fala sobre as injustiças do mundo e de como somos julgados pelos olhos tortos dessas pessoas. Não importa como fazemos o bem ou agimos de forma correta; para algumas pessoas sempre estaremos errados - pois elas nos julgam por seus próprios atos.

Observamos aqui pela própria ótica renascentista que o eu poético pensa e analisa o mundo à sua volta, e o ato de cogitar revela a ânsia de entender as razões de tantas incongruências - deve-se questioná-las, para o bem ou para o mal. Tampouco somos vítimas ou vilões; somos humanos, cheios de falhas. Então por que tantos dedos apontados para nós se todos são passíveis de falhas?

É ruim ter seus atos julgados por quem não tem moral para apontar o caminho correto. É importante lembrar também que o julgamento dos outros sobre nós não deve ter força para anular nossa essência, quem somos de verdade. Por isso gosto muito desse trecho: "Eu sou quem sou" (I am that I am) e isso basta. Se de fato nos conhecemos, apesar de nosso atos se perderem no julgamento podre dos "tortos" que presidem a sociedade, ainda assim o mal que reina pode ser combatido. Ainda que todos sejam "maus e em sua maldade reinam".


domingo, 8 de janeiro de 2017

Vitória, de Joseph Conrad

(Porto Alegre: Dublinense, 2016)

O mundo é um cão raivoso. Vai mordê-lo, se você der uma oportunidade. (p.72)

Estou muito feliz em poder resenhar pra vocês o romance Vitória, pois esta edição foi feita especialmente para os associados da TAG Experiências Literárias. Esta foi a obra escolhida para o mês de novembro de 2016 e contou com a curadoria/indicação e posfácio do escritor e filósofo político John Gray, além de vir com a revista do mês, um postal e um marcador de livros. Sobre como funciona a TAG, indico que vocês olhem a proposta no site deles, mas a minha opinião, de quem já recebeu até agora 4 obras, é a mais positiva possível! Sou leitora voraz, professora de Literatura e bibliófila, como vocês sabem, então livros são sempre muito bem vindos na minha vida! Mas vamos à obra.

Essa foi uma segunda chance de poder (re)descobrir o estilo de Joseph Conrad (1857-1915): escrita envolvente, que nos presenteia com uma narrativa cheia de ação, aventuras e cenários exóticos, combinando tensão, suspense e susto com uma bela sensibilidade. O romance Vitória (Victory,1915) é o último livro escrito pelo autor de origem polonesa que imigrou bem jovem para a Inglaterra com sua família. Ele tem não só em seu currículo mas como experiência de vida o fato de ter passado quase 20 anos na Marinha e viajado muito por terras/países que foram inseridos, após a metade do século XIX, no processo de (re)colonização pelos países europeus - a isso os historiadores chamam de Neocolonialismo. A obra mais conhecida de Conrad, no entanto, é o romance Coração das Trevas (Heart of Darkness, 1899), a única obra dele que até hoje eu havia lido - e que indico, claro.

O cenário exótico de Vitória se projeta em algum lugar do arquipélago do Mar de Java, na região das Índias Ocidentais, em meio aos chineses (nativos) e aos europeus (brancos), cada um tentando conviver e sobreviver neste processo político-econômico neocolonizador. Ali mora o sueco Axel Heyst, homem que viaja pelo mundo sozinho e que adotou como filosofia de vida a solidão e o desapego. Ele conduz sua vida sem demonstrar nenhum sinal de esperança na humanidade, sendo bem indiferente a ela, na verdade. Essa atitude reflete um sentimento niilista próprio dos homens de fim de século e muito condizente com a filosofia pessimista de Arthur Schopenhauer, influência que identifiquei logo de cara. Por ironia, o fato de ser mero expectador da vida bem como ser descrente das ilusões mundanas não exclui Heyst dos problemas que o mundo lhe traz, o que demonstra que é bem difícil esse negócio de viver sendo indiferente e desdenhoso das coisas. E das pessoas.

Nesse método, ele percebera um meio de passar pela vida sem sofrimentos e quase sem ter nenhuma preocupação no mundo - evasivo, logo invulnerável. (p.104)

Heyst salva da falência o comerciante Morrison, livrando-o de ter seus bens adquiridos pelos colonizadores portugueses que ali haviam fixado território. Em sinal de gratidão, Morrison lhe convida pra ser sócio de uma companhia de extração de carvão instalada na solitária ilha de Samburan. Morrison fica doente e morre e o empreendimento não dá certo, pois na ilha não há nenhum recurso natural a ser explorado. Heyst resolve ficar por ali mesmo, na ilha isolada, e isso por si só causa estranhamento perante as pessoas que moram nas outras ilhas habitadas: elas o definem como excêntrico, e um comerciante, Davidson, depois resolve se aproximar do sueco, oferecendo-lhe qualquer ajuda caso um dia precise.

E ele precisou. Heyst pede uma "carona" no navio de Davidson pois tem que ir até o centro comercial (em outra ilha, onde se concentra a maior parte dos estrangeiros) para finalizar os negócios da companhia de carvão. Apesar de ser coisa rápida, ele tem que esperar quase um mês pela "carona" de volta, e nesse meio tempo fica hospedado no hotel do fofoqueiro e maldoso Schomberg. Ali Heyst conhece a jovem Lena, que trabalha em uma companhia artística contratada para divertir os estrangeiros da cidade. Encantado pela tristeza da moça, resolve chamá-la pra fugir com ele rumo à ilha solitária. Cansada da vida de exploração que leva, Lena segue aquele homem enigmático que lhe inspira confiança. 

Pois o objetivo da razão é justificar os desejos obscuros que movem nossa conduta, nossos impulsos, paixões, preconceitos e loucuras, e também os nossos medos. (p.97)

Ferido por sua vaidade machista, porque foi rejeitado por Lena, e movido por vingança, Schomberg diz a um grupo de aventureiros que Heyst guarda uma grande fortuna na ilha, e incita-os a ir até lá, garantindo que será um negócio dos mais fáceis. O líder do grupo, Mr. Jones, seu secretário Ricardo Martin e seu ajudante negro Pedro resolvem seguir as pistas e...bom, já deu pra ver que o romance de quase 400 páginas é cheio de ação, né? 

Matar, amar...os maiores empreendimentos que a vida apresenta a um homem. (p.214)

Essa resenha não ficou grande à toa: além de ser um romance ainda no formato/estilo do século XIX (o que eu, particularmente, adoro), contém muitas reflexões e ideias já com o sabor do século XX - não esqueçamos também que a I Guerra Mundial acontecia à época da publicação de Vitória.

Outro ponto que destaco: a gente pensa que, por ser um romance em que predominam as personagens masculinas, as figuras femininas de Lena e da Sra. Schomberg não terão muita importância na história: pois lhes digo que se enganam redondamente! Elas tem tanta importância que as ações principais do enredo assim como o clímax são definidos justamente por essas mulheres corajosas de aspecto frágil.

A principal reflexão que faço ao fim da leitura de Vitória é sobre o fato de buscarmos como solução pras nossas vidas a negação da esperança e da crença das chamadas "ilusões mundanas": acreditar que tudo pode dar certo no final e ter esperança no homem é um exemplo dessas crenças. Cabe aqui questionar se o ato de se isolar do mundo, de se "proteger" do convívio humano e ser mero expectador da realidade que nos cerca corresponde a, de fato, viver. Vale a pena viver assim? Ou poderemos nos permitir ser transformados pelo amor, pela amizade e pela solidariedade, dadas a nós sem precisar de nenhuma moeda de troca? 

As pessoas ficam de certa forma ligadas a quem faz algo por elas. (p.203)