Um blog para mulheres inteligentes e empoderadas pelo conhecimento!

Um blog para mulheres inteligentes e empoderadas pelo conhecimento!
"Interior de escola árabe em Constantina". Grafite e aquarela sobre papel de Theodore Chasseriau.1846.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Flores Azuis - Carola Saavedra

(São Paulo: Companhia das Letras, 2008)

Sempre é possível perder o que não se tem, sempre é possível afastar-se mais ainda, a possibilidade ilimitada da falta. (p.45)

Pois vamos lá: mais um romance contemporâneo na resenha, meus amores. E de uma autora, sim. A Carola Saavedra (1973-   ) nasceu no Chile mas depois veio com a família pro Brasil aos 3 anos de idade. Além de ter outras obras publicadas, ela também tem um site onde fala sobre seus textos, processo de criação e sobre a recepção crítica deles, além de veicular entrevistas etc. Se você quiser conhecê-la um pouco mais, é só clicar aqui.

Duas coisas me chamaram a atenção em Flores Azuis: o estilo de Saavedra é cru e direto, o que rechaça logo de cara essa história de que existe uma tal de "escrita feminina"; se eu não soubesse que o autor do romance era uma mulher, eu acharia que era um homem. De verdade. E aí chegamos no segundo ponto: a construção da personagem Marcos, que desnuda por completo toda a figura do macho e as expectativas femininas em torno do homem moderno.

Vamos à história: Marcos acabou de se separar da esposa e, ao se mudar pra um apartamento, tem que se adaptar à nova vida de solteiro - além de demonstrar inabilidade paterna em lidar com a filha de 3 anos, Manuela, quando a menina vai passar os fins de semana com ele. Um dia Marcos começa a receber cartas de uma mulher, que assina como A.; uma carta por dia, cartas de uma mulher abandonada pelo companheiro nas quais tenta narrar e rememorar cada pedaço de seu relacionamento na expectativa de que seu amado retorne.

Obviamente que as cartas não são pra Marcos, e logo ele se pergunta quem foi o morador do apartamento anterior à ele e se dispõe a tentar rastrear esse ex-morador assim como a autora das cartas. É que ao viver uma rotina aparentemente sem sentido e vazia, Marcos começa a ansiar pela chegada desses escritos íntimos - eles vão dar um novo colorido, ainda que meio estranho, à vida dele. Marcos quer conhecer esse casal dilacerado pela violência. Sim, pois se você achou que encontraria aqui uma história de amor, se enganou. Flores Azuis retrata muito mais a falência das relações entre homem e mulher, que não conseguem se entender pois nenhuma das partes alcança as expectativas do parceiro a contento. E nesse aspecto é que a linguagem do narrador se mostra crua e sem rodeios.

Um homem recém-separado precisa de uma mulher com um mínimo de compreensão. [...] e que o deixe em paz quando a solidão se faz novamente indispensável. (p.49)

A estrutura de Flores Azuis me encantou pois é parcialmente epistolar - e aí não há nada de novo, pois romances epistolares (histórias narradas por meio de cartas trocadas entre os personagens) existem na literatura desde o século XVIII. Os meus preferidos são os famosos As ligações perigosas (1782), do francês Chordelos de Laclos, e Lady Susan (1794), da minha megadiva inglesa Jane Austen. Mas resgatar esse tipo de estrutura em um romance brasileiro contemporâneo me parece bem interessante, para não dizer inusitado.

Quero adverti-lo/la que você vai passar uns bons dias ruminando os caquinhos dos seus pensamentos depois de ler Flores Azuis (vai ler rápido como eu, com certeza); sim, você sofrerá um belo impacto. E depois desse impacto, já que estamos falando de cartas e relacionamentos, indico que você assista o lindíssimo Possessão (2002); dá uma olhada aqui no trailer do You Tube (desculpa, só encontrei em inglês ;)






domingo, 15 de janeiro de 2017

Pausa poética: Soneto 121 - William Shakespeare

Resultado de imagem para shakespeare

Soneto 121

É melhor ser vil do que vil considerado,
Quando não se é, e ser repreendido por sê-lo,
E o prazer justo perdido, que é tão caro
Não por nós, mas pela opinião alheia.
Por que a visão falsa e adulterada dos outros
Deve julgar o meu sangue ardente?
Ou minhas fraquezas, enquanto o mais fraco espia,
Que por eles seja mau o que acredito bom?
Não, eu sou quem sou, e eles que julgam
Meus erros reconhecem em mim apenas os deles;
Posso ser reto, embora eles sejam tortos;
Diante desses pensamentos, meus atos se ocultam,
A menos que esse mal geral que eles mantêm:
Todos são maus e em sua maldade reinam.
(trad. aqui)

Pra quem não sabe, Shakespeare escreveu 154 sonetos, dos quais alguns são bens famosos, dada a extrema consonância com os tempos tortos em que vivemos. E o soneto 121 é um deles - que fala sobre as injustiças do mundo e de como somos julgados pelos olhos tortos dessas pessoas. Não importa como fazemos o bem ou agimos de forma correta; para algumas pessoas sempre estaremos errados - pois elas nos julgam por seus próprios atos.

Observamos aqui pela própria ótica renascentista que o eu poético pensa e analisa o mundo à sua volta, e o ato de cogitar revela a ânsia de entender as razões de tantas incongruências - deve-se questioná-las, para o bem ou para o mal. Tampouco somos vítimas ou vilões; somos humanos, cheios de falhas. Então por que tantos dedos apontados para nós se todos são passíveis de falhas?

É ruim ter seus atos julgados por quem não tem moral para apontar o caminho correto. É importante lembrar também que o julgamento dos outros sobre nós não deve ter força para anular nossa essência, quem somos de verdade. Por isso gosto muito desse trecho: "Eu sou quem sou" (I am that I am) e isso basta. Se de fato nos conhecemos, apesar de nosso atos se perderem no julgamento podre dos "tortos" que presidem a sociedade, ainda assim o mal que reina pode ser combatido. Ainda que todos sejam "maus e em sua maldade reinam".


domingo, 8 de janeiro de 2017

Vitória, de Joseph Conrad

(Porto Alegre: Dublinense, 2016)

O mundo é um cão raivoso. Vai mordê-lo, se você der uma oportunidade. (p.72)

Estou muito feliz em poder resenhar pra vocês o romance Vitória, pois esta edição foi feita especialmente para os associados da TAG Experiências Literárias. Esta foi a obra escolhida para o mês de novembro de 2016 e contou com a curadoria/indicação e posfácio do escritor e filósofo político John Gray, além de vir com a revista do mês, um postal e um marcador de livros. Sobre como funciona a TAG, indico que vocês olhem a proposta no site deles, mas a minha opinião, de quem já recebeu até agora 4 obras, é a mais positiva possível! Sou leitora voraz, professora de Literatura e bibliófila, como vocês sabem, então livros são sempre muito bem vindos na minha vida! Mas vamos à obra.

Essa foi uma segunda chance de poder (re)descobrir o estilo de Joseph Conrad (1857-1915): escrita envolvente, que nos presenteia com uma narrativa cheia de ação, aventuras e cenários exóticos, combinando tensão, suspense e susto com uma bela sensibilidade. O romance Vitória (Victory,1915) é o último livro escrito pelo autor de origem polonesa que imigrou bem jovem para a Inglaterra com sua família. Ele tem não só em seu currículo mas como experiência de vida o fato de ter passado quase 20 anos na Marinha e viajado muito por terras/países que foram inseridos, após a metade do século XIX, no processo de (re)colonização pelos países europeus - a isso os historiadores chamam de Neocolonialismo. A obra mais conhecida de Conrad, no entanto, é o romance Coração das Trevas (Heart of Darkness, 1899), a única obra dele que até hoje eu havia lido - e que indico, claro.

O cenário exótico de Vitória se projeta em algum lugar do arquipélago do Mar de Java, na região das Índias Ocidentais, em meio aos chineses (nativos) e aos europeus (brancos), cada um tentando conviver e sobreviver neste processo político-econômico neocolonizador. Ali mora o sueco Axel Heyst, homem que viaja pelo mundo sozinho e que adotou como filosofia de vida a solidão e o desapego. Ele conduz sua vida sem demonstrar nenhum sinal de esperança na humanidade, sendo bem indiferente a ela, na verdade. Essa atitude reflete um sentimento niilista próprio dos homens de fim de século e muito condizente com a filosofia pessimista de Arthur Schopenhauer, influência que identifiquei logo de cara. Por ironia, o fato de ser mero expectador da vida bem como ser descrente das ilusões mundanas não exclui Heyst dos problemas que o mundo lhe traz, o que demonstra que é bem difícil esse negócio de viver sendo indiferente e desdenhoso das coisas. E das pessoas.

Nesse método, ele percebera um meio de passar pela vida sem sofrimentos e quase sem ter nenhuma preocupação no mundo - evasivo, logo invulnerável. (p.104)

Heyst salva da falência o comerciante Morrison, livrando-o de ter seus bens adquiridos pelos colonizadores portugueses que ali haviam fixado território. Em sinal de gratidão, Morrison lhe convida pra ser sócio de uma companhia de extração de carvão instalada na solitária ilha de Samburan. Morrison fica doente e morre e o empreendimento não dá certo, pois na ilha não há nenhum recurso natural a ser explorado. Heyst resolve ficar por ali mesmo, na ilha isolada, e isso por si só causa estranhamento perante as pessoas que moram nas outras ilhas habitadas: elas o definem como excêntrico, e um comerciante, Davidson, depois resolve se aproximar do sueco, oferecendo-lhe qualquer ajuda caso um dia precise.

E ele precisou. Heyst pede uma "carona" no navio de Davidson pois tem que ir até o centro comercial (em outra ilha, onde se concentra a maior parte dos estrangeiros) para finalizar os negócios da companhia de carvão. Apesar de ser coisa rápida, ele tem que esperar quase um mês pela "carona" de volta, e nesse meio tempo fica hospedado no hotel do fofoqueiro e maldoso Schomberg. Ali Heyst conhece a jovem Lena, que trabalha em uma companhia artística contratada para divertir os estrangeiros da cidade. Encantado pela tristeza da moça, resolve chamá-la pra fugir com ele rumo à ilha solitária. Cansada da vida de exploração que leva, Lena segue aquele homem enigmático que lhe inspira confiança. 

Pois o objetivo da razão é justificar os desejos obscuros que movem nossa conduta, nossos impulsos, paixões, preconceitos e loucuras, e também os nossos medos. (p.97)

Ferido por sua vaidade machista, porque foi rejeitado por Lena, e movido por vingança, Schomberg diz a um grupo de aventureiros que Heyst guarda uma grande fortuna na ilha, e incita-os a ir até lá, garantindo que será um negócio dos mais fáceis. O líder do grupo, Mr. Jones, seu secretário Ricardo Martin e seu ajudante negro Pedro resolvem seguir as pistas e...bom, já deu pra ver que o romance de quase 400 páginas é cheio de ação, né? 

Matar, amar...os maiores empreendimentos que a vida apresenta a um homem. (p.214)

Essa resenha não ficou grande à toa: além de ser um romance ainda no formato/estilo do século XIX (o que eu, particularmente, adoro), contém muitas reflexões e ideias já com o sabor do século XX - não esqueçamos também que a I Guerra Mundial acontecia à época da publicação de Vitória.

Outro ponto que destaco: a gente pensa que, por ser um romance em que predominam as personagens masculinas, as figuras femininas de Lena e da Sra. Schomberg não terão muita importância na história: pois lhes digo que se enganam redondamente! Elas tem tanta importância que as ações principais do enredo assim como o clímax são definidos justamente por essas mulheres corajosas de aspecto frágil.

A principal reflexão que faço ao fim da leitura de Vitória é sobre o fato de buscarmos como solução pras nossas vidas a negação da esperança e da crença das chamadas "ilusões mundanas": acreditar que tudo pode dar certo no final e ter esperança no homem é um exemplo dessas crenças. Cabe aqui questionar se o ato de se isolar do mundo, de se "proteger" do convívio humano e ser mero expectador da realidade que nos cerca corresponde a, de fato, viver. Vale a pena viver assim? Ou poderemos nos permitir ser transformados pelo amor, pela amizade e pela solidariedade, dadas a nós sem precisar de nenhuma moeda de troca? 

As pessoas ficam de certa forma ligadas a quem faz algo por elas. (p.203)