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"Interior com menina que lê". Óleo sobre tela de Henrique Bernardelli.1886.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Flores Azuis - Carola Saavedra

(São Paulo: Companhia das Letras, 2008)

Sempre é possível perder o que não se tem, sempre é possível afastar-se mais ainda, a possibilidade ilimitada da falta. (p.45)

Pois vamos lá: mais um romance contemporâneo na resenha, meus amores. E de uma autora, sim. A Carola Saavedra (1973-   ) nasceu no Chile mas depois veio com a família pro Brasil aos 3 anos de idade. Além de ter outras obras publicadas, ela também tem um site onde fala sobre seus textos, processo de criação e sobre a recepção crítica deles, além de veicular entrevistas etc. Se você quiser conhecê-la um pouco mais, é só clicar aqui.

Duas coisas me chamaram a atenção em Flores Azuis: o estilo de Saavedra é cru e direto, o que rechaça logo de cara essa história de que existe uma tal de "escrita feminina"; se eu não soubesse que o autor do romance era uma mulher, eu acharia que era um homem. De verdade. E aí chegamos no segundo ponto: a construção da personagem Marcos, que desnuda por completo toda a figura do macho e as expectativas femininas em torno do homem moderno.

Vamos à história: Marcos acabou de se separar da esposa e, ao se mudar pra um apartamento, tem que se adaptar à nova vida de solteiro - além de demonstrar inabilidade paterna em lidar com a filha de 3 anos, Manuela, quando a menina vai passar os fins de semana com ele. Um dia Marcos começa a receber cartas de uma mulher, que assina como A.; uma carta por dia, cartas de uma mulher abandonada pelo companheiro nas quais tenta narrar e rememorar cada pedaço de seu relacionamento na expectativa de que seu amado retorne.

Obviamente que as cartas não são pra Marcos, e logo ele se pergunta quem foi o morador do apartamento anterior à ele e se dispõe a tentar rastrear esse ex-morador assim como a autora das cartas. É que ao viver uma rotina aparentemente sem sentido e vazia, Marcos começa a ansiar pela chegada desses escritos íntimos - eles vão dar um novo colorido, ainda que meio estranho, à vida dele. Marcos quer conhecer esse casal dilacerado pela violência. Sim, pois se você achou que encontraria aqui uma história de amor, se enganou. Flores Azuis retrata muito mais a falência das relações entre homem e mulher, que não conseguem se entender pois nenhuma das partes alcança as expectativas do parceiro a contento. E nesse aspecto é que a linguagem do narrador se mostra crua e sem rodeios.

Um homem recém-separado precisa de uma mulher com um mínimo de compreensão. [...] e que o deixe em paz quando a solidão se faz novamente indispensável. (p.49)

A estrutura de Flores Azuis me encantou pois é parcialmente epistolar - e aí não há nada de novo, pois romances epistolares (histórias narradas por meio de cartas trocadas entre os personagens) existem na literatura desde o século XVIII. Os meus preferidos são os famosos As ligações perigosas (1782), do francês Chordelos de Laclos, e Lady Susan (1794), da minha megadiva inglesa Jane Austen. Mas resgatar esse tipo de estrutura em um romance brasileiro contemporâneo me parece bem interessante, para não dizer inusitado.

Quero adverti-lo/la que você vai passar uns bons dias ruminando os caquinhos dos seus pensamentos depois de ler Flores Azuis (vai ler rápido como eu, com certeza); sim, você sofrerá um belo impacto. E depois desse impacto, já que estamos falando de cartas e relacionamentos, indico que você assista o lindíssimo Possessão (2002); dá uma olhada aqui no trailer do You Tube (desculpa, só encontrei em inglês ;)






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