Um blog para mulheres inteligentes e empoderadas pelo conhecimento!

Um blog para mulheres inteligentes e empoderadas pelo conhecimento!
"Interior de escola árabe em Constantina". Grafite e aquarela sobre papel de Theodore Chasseriau.1846.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Vitória, de Joseph Conrad

(Porto Alegre: Dublinense, 2016)

O mundo é um cão raivoso. Vai mordê-lo, se você der uma oportunidade. (p.72)

Estou muito feliz em poder resenhar pra vocês o romance Vitória, pois esta edição foi feita especialmente para os associados da TAG Experiências Literárias. Esta foi a obra escolhida para o mês de novembro de 2016 e contou com a curadoria/indicação e posfácio do escritor e filósofo político John Gray, além de vir com a revista do mês, um postal e um marcador de livros. Sobre como funciona a TAG, indico que vocês olhem a proposta no site deles, mas a minha opinião, de quem já recebeu até agora 4 obras, é a mais positiva possível! Sou leitora voraz, professora de Literatura e bibliófila, como vocês sabem, então livros são sempre muito bem vindos na minha vida! Mas vamos à obra.

Essa foi uma segunda chance de poder (re)descobrir o estilo de Joseph Conrad (1857-1915): escrita envolvente, que nos presenteia com uma narrativa cheia de ação, aventuras e cenários exóticos, combinando tensão, suspense e susto com uma bela sensibilidade. O romance Vitória (Victory,1915) é o último livro escrito pelo autor de origem polonesa que imigrou bem jovem para a Inglaterra com sua família. Ele tem não só em seu currículo mas como experiência de vida o fato de ter passado quase 20 anos na Marinha e viajado muito por terras/países que foram inseridos, após a metade do século XIX, no processo de (re)colonização pelos países europeus - a isso os historiadores chamam de Neocolonialismo. A obra mais conhecida de Conrad, no entanto, é o romance Coração das Trevas (Heart of Darkness, 1899), a única obra dele que até hoje eu havia lido - e que indico, claro.

O cenário exótico de Vitória se projeta em algum lugar do arquipélago do Mar de Java, na região das Índias Ocidentais, em meio aos chineses (nativos) e aos europeus (brancos), cada um tentando conviver e sobreviver neste processo político-econômico neocolonizador. Ali mora o sueco Axel Heyst, homem que viaja pelo mundo sozinho e que adotou como filosofia de vida a solidão e o desapego. Ele conduz sua vida sem demonstrar nenhum sinal de esperança na humanidade, sendo bem indiferente a ela, na verdade. Essa atitude reflete um sentimento niilista próprio dos homens de fim de século e muito condizente com a filosofia pessimista de Arthur Schopenhauer, influência que identifiquei logo de cara. Por ironia, o fato de ser mero expectador da vida bem como ser descrente das ilusões mundanas não exclui Heyst dos problemas que o mundo lhe traz, o que demonstra que é bem difícil esse negócio de viver sendo indiferente e desdenhoso das coisas. E das pessoas.

Nesse método, ele percebera um meio de passar pela vida sem sofrimentos e quase sem ter nenhuma preocupação no mundo - evasivo, logo invulnerável. (p.104)

Heyst salva da falência o comerciante Morrison, livrando-o de ter seus bens adquiridos pelos colonizadores portugueses que ali haviam fixado território. Em sinal de gratidão, Morrison lhe convida pra ser sócio de uma companhia de extração de carvão instalada na solitária ilha de Samburan. Morrison fica doente e morre e o empreendimento não dá certo, pois na ilha não há nenhum recurso natural a ser explorado. Heyst resolve ficar por ali mesmo, na ilha isolada, e isso por si só causa estranhamento perante as pessoas que moram nas outras ilhas habitadas: elas o definem como excêntrico, e um comerciante, Davidson, depois resolve se aproximar do sueco, oferecendo-lhe qualquer ajuda caso um dia precise.

E ele precisou. Heyst pede uma "carona" no navio de Davidson pois tem que ir até o centro comercial (em outra ilha, onde se concentra a maior parte dos estrangeiros) para finalizar os negócios da companhia de carvão. Apesar de ser coisa rápida, ele tem que esperar quase um mês pela "carona" de volta, e nesse meio tempo fica hospedado no hotel do fofoqueiro e maldoso Schomberg. Ali Heyst conhece a jovem Lena, que trabalha em uma companhia artística contratada para divertir os estrangeiros da cidade. Encantado pela tristeza da moça, resolve chamá-la pra fugir com ele rumo à ilha solitária. Cansada da vida de exploração que leva, Lena segue aquele homem enigmático que lhe inspira confiança. 

Pois o objetivo da razão é justificar os desejos obscuros que movem nossa conduta, nossos impulsos, paixões, preconceitos e loucuras, e também os nossos medos. (p.97)

Ferido por sua vaidade machista, porque foi rejeitado por Lena, e movido por vingança, Schomberg diz a um grupo de aventureiros que Heyst guarda uma grande fortuna na ilha, e incita-os a ir até lá, garantindo que será um negócio dos mais fáceis. O líder do grupo, Mr. Jones, seu secretário Ricardo Martin e seu ajudante negro Pedro resolvem seguir as pistas e...bom, já deu pra ver que o romance de quase 400 páginas é cheio de ação, né? 

Matar, amar...os maiores empreendimentos que a vida apresenta a um homem. (p.214)

Essa resenha não ficou grande à toa: além de ser um romance ainda no formato/estilo do século XIX (o que eu, particularmente, adoro), contém muitas reflexões e ideias já com o sabor do século XX - não esqueçamos também que a I Guerra Mundial acontecia à época da publicação de Vitória.

Outro ponto que destaco: a gente pensa que, por ser um romance em que predominam as personagens masculinas, as figuras femininas de Lena e da Sra. Schomberg não terão muita importância na história: pois lhes digo que se enganam redondamente! Elas tem tanta importância que as ações principais do enredo assim como o clímax são definidos justamente por essas mulheres corajosas de aspecto frágil.

A principal reflexão que faço ao fim da leitura de Vitória é sobre o fato de buscarmos como solução pras nossas vidas a negação da esperança e da crença das chamadas "ilusões mundanas": acreditar que tudo pode dar certo no final e ter esperança no homem é um exemplo dessas crenças. Cabe aqui questionar se o ato de se isolar do mundo, de se "proteger" do convívio humano e ser mero expectador da realidade que nos cerca corresponde a, de fato, viver. Vale a pena viver assim? Ou poderemos nos permitir ser transformados pelo amor, pela amizade e pela solidariedade, dadas a nós sem precisar de nenhuma moeda de troca? 

As pessoas ficam de certa forma ligadas a quem faz algo por elas. (p.203)







Nenhum comentário:

Postar um comentário