Um blog para mulheres inteligentes e empoderadas pelo conhecimento!

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"Interior de escola árabe em Constantina". Grafite e aquarela sobre papel de Theodore Chasseriau.1846.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

O duelo - Anton Tchékhov

( Barueri, SP: Manole/Amarilys, 2011)

"E o que é a raça humana? Uma ilusão, uma miragem..." (p.87)

Aqui abro espaço para a leitura de um clássico; não só a obra, mas o autor também. Na minha lista pessoal de clássicos, o russo Anton Tchékhov é presença eterna e seus textos são sempre revisitados. A seu respeito, o escritor e crítico russo Vladimir Nabokov nos diz que ele é um daqueles autores de "fôlego curto", que não se permitem textos muito compridos, no que eu concordo inteiramente; porém, há uma exceção com O duelo, uma novela literária de 21 capítulos. Ainda é um texto curto mas longo se comparado à maioria dos contos de Tchékhov.

Publicado em 1891 no formato de folhetim, O duelo possui uma história pautada no pensamento de uma corrente filosófica que estava bastante em voga na segunda metade do século XIX: o darwinismo social, que prega a seleção natural de seres humanos que poderão contribuir para o progresso social e da humanidade.

"[...] O que protegia a humanidade primitiva de tipos como Laiévski eram a seleção natural e a luta pela sobrevivência; agora a nossa cultura afrouxou a luta e a seleção e nós mesmos devemos cuidar da eliminação dos débeis e inaptos [...] " (p.52) 

Laiévski é essa pessoa jovem extremamente passional, inconstante, inconsequente e um funcionário público relapso e preguiçoso. Aliado à isso, vive há 2 anos com Nádia, mulher casada com quem fugiu de Petersburgo para uma cidadezinha litorânea na região russa do Cáucaso: eles fugiram pra viver um sonho de amor que fracassou. Apesar de sua personalidade e de suas ações não serem tão nobres, Laiévski tem a consideração e amizade de várias pessoas na cidade, como o médico Samóilenko. Porém é desprezado pelo zoológo Von Koren, jovem convicto de que pessoas como Laiévski deveriam ser exterminados do convívio social pois são fracos.

Nem as ponderações gentis e tolerantes de Samóilenko e nem as argumentações teológicas do jovem e alegre diácono Pobédov são capazes de minimizar o julgamento que Von Koren faz do caráter de Laiévski. Diante do desenrolar de outros fatos paralelos, e no auge do desespero de sua própria insatisfação - tanto consigo quando com o relacionamento com a companheira Nádia - Laiévski acredita que o melhor é ir embora e largar tudo pra trás. Mas como, se não tem dinheiro e deve muitas pessoas?

Ele vai até a casa de Samóilenko e ao encontrar Von Koren, inicia uma discussão que termina com a fatídica frase: "Eu vou me bater!" Ou seja: Laiévski propõe um duelo, no afã do momento, a seu desafeto, a fim de resolver logo suas diferenças.

Parece cômico se não fosse trágico, e essa é uma das características de que mais gosto em Tchékhov: a capacidade de fazer humor a partir da tristeza e da tragédia de seus personagens. Para leitores um pouco degenerados como eu, ler o texto tchekhoviano é como saborear um prato bem requintado. Fãs de Machado de Assis, como eu, também fatalmente se apaixonam pelo autor russo. Pra quem nunca leu um texto dele, sugiro começar pelos contos famosos "A dama com o cachorrinho" e "Vanka". Garanto que a partir daí a literatura russa ganhará espaço em sua vida, caro leitor.

"Não entendo como é possível se ocupar seriamente com bichinhos e vermezinhos, enquanto o povo está sofrendo." (p.77)

domingo, 12 de fevereiro de 2017

As sombras de Longbourn, de Jo Baker

(São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2014.)

O dia de lavar roupa era inadiável, mas ainda assim a lavagem semanal da roupa de cama e mesa da casa era uma perspectiva desalentadora para Sarah. O ar estava gélido às quatro e meia da manhã, quando ela começou a trabalhar. [...] Seria um longo dia de labuta, e aquilo era só o começo. (p.13)

Me interessei em ler As sombras de Longbourn justamente porque seu enredo retoma um de meus romances favoritos de todos os tempos: Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Mas retoma de um jeito diferente, que não pretende distorcer nenhum dos fatos que nós, que já lemos o famoso romance de Austen, conhecemos tão bem; não, não. As sombras retoma o mesmo enredo sob o ponto de vista da criadagem, principalmente de Sarah, a jovem empregada da família Bennett – família esta dona da propriedade Longbourn e pertencente à pequena aristocracia rural.

Órfã, Sarah foi levada ainda criança para trabalhar para os Bennett – foi acolhida pela governanta / cozinheira da casa, a sra. Hill, e pelo cocheiro, sr. Hill, ambos casados e que sempre a trataram como filha. Apesar da jornada diária de trabalho que logo lhe foi imposta e à qual cresceu acostumada, Sarah sempre soube que ali era o melhor lugar para ela, pois tinha abrigo, comida e compartilhava das gentilezas das senhoritas Bennett, principalmente de Elizabeth.

Porém, sua convicção é abalada quando seus patrões contratam o jovem e calado James Smith, para trabalhar como lacaio e ajudar o já cansado sr. Hill. Smith surge do nada procurando por emprego e ali encontra não só acolhimento mas também a simpatia de Sarah.

Dentre os vários percalços que se desenrolarão sob o olhar da jovem empregada, no que diz respeito às vidas de seus patrões, ela mesma terá que amadurecer e perder a ingenuidade, inclusive se perguntando: servir aos outros é realmente a que se resumirá toda sua vida? E quanto ao amor? Ela também não será merecedora, tanto quanto Jane e Elizabeth?

Ler As sombras permite conhecer o universo da criadagem de fins do século XVIII, tanto aquela que habitava o mundo dos Bennett quanto a que cercava a grande aristocracia, representada pelos senhores Bingley e Darcy (futuros maridos das primogênitas Bennett).

Por meio de suas pesquisas (até porque se declara megafã de Austen), a autora Jo Baker reconta Orgulho e Preconceito do backstage: por meio de uma linguagem fluida e gostosa, somos transportados para as pequenas alegrias e desejos assim como os infortúnios e angústias de pessoas que deviam passar despercebidas da rotina diária de seus amos.

Viver assim, inteiramente à mercê dos caprichos e das fantasias de outras pessoas, ela pensou, não era viver. (p.229)