Um blog para mulheres inteligentes e empoderadas pelo conhecimento!

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"Interior de escola árabe em Constantina". Grafite e aquarela sobre papel de Theodore Chasseriau.1846.

domingo, 30 de julho de 2017

Orlando - Virginia Woolf

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(São Paulo: Ed. Landamark, 2013)

A mudança de sexo, embora alterasse seu futuro, nada fez para alterar sua identidade. Seu rosto permanecia, como provam os relatos, praticamente o mesmo. (p.67)

Olá meus leitores! Como foram de férias? Recheadas de leituras e aventuras, eu espero né ;) ? Já fazia um tempo que eu estava com vontade de ler Orlando (Orlando: A Biography - 1928), da autora inglesa Virginia Woolf, e nesse mês consegui. Não por ser, eu acho, a única obra que ainda não tinha lido dela, mas porque procurava uma edição que valesse a pena. E essa aqui, da editora Landmark, é bilíngue, então pude ler o texto em português e inglês.

Os críticos em geral dizem que Orlando é a obra que colocou Woolf no patamar de importância literária na Inglaterra, muito mais do que Mrs. Dalloway (meu preferido e publicado em 1925). E entende-se a razão. Orlando é um nobre aristocrata, bem rico, que vive plenamente o período elisabetano, período este caracterizado por ter a rainha Elizabeth I no poder. É o Renascimento inglês, considerado a época de ouro das artes e da economia inglesa (época de Shakespeare e da descoberta do "Novo Mundo"). Pois bem. Orlando possui todas as benesses de um jovem de seu tempo - favores reais, mulheres a seus pés e beleza. Por acreditar que possui tudo, inclusive o amor de todos, ele crê que sua paixão por Sacha, uma nobre russa, tornará sua vida completa. Só não estava contando que a moça só queria se divertir com ele, afinal de contas, para ela era apenas diversão.

A desilusão no amor leva ao descrédito nas pessoas dali em diante, e por isso Orlando resolve se trancar para sempre em sua mansão no campo. Resolve também terminar de escrever seu poema "O Carvalho", pois como um bom aristocrata Orlando amava a poesia e queria também ser reconhecido por sua inteligência e louvor às artes. Ele pede que o poeta Nicholas Greene, considerado "o gênio", leia seu manuscrito, porém este escreve uma sátira ridicularizando a figura de Orlando e banalizando a pretensão do jovem de ser reconhecido como um bom poeta. Então, totalmente arrasado, Orlando aceita ser embaixador em Constantinopla, e é lá que se opera a coisa mais fantástica da história: ele dorme por sete dias, como se entrasse em um estado de coma, e após acordar descobre que seu sexo mudou - Orlando era agora uma mulher!

Como seria sua vida dali pra frente? Mudaria sua essência, seu modo de pensar, já que seu sexo mudou? Orlando, o romance, é filho do século XX pois coloca em discussão a importância da mulher na sociedade, questionando essa figura tão subestimada. Mas não somente isto. A narrativa de Woolf é irônica, obriga o leitor a participar do discurso, e o narrador da história se apresenta como biógrafo da vida de Orlando dizendo que sabe tudo mas ao mesmo tempo fica se explicando por não conhecer detalhes ou razões para as atitudes do rapaz. É um biógrafo fajuto, que ao invés de afirmar, duvida. 

E muito mais o romance Orlando nos ensina, principalmente aos profissionais da área de Letras: o tempo todo o narrador paga um lindo tributo à importância da arte e da poesia no mundo; muitas vezes o narrador dá uma lição de história de literatura inglesa e de crítica literária também, o que torna o romance quase que uma metaficção.

Imagino as dúvidas que devem ter dilacerado a mente brilhante da autora ao decidir abordar, sendo mulher, temas tão difíceis para as primeiras décadas do século XX. E olha que ela era até bem aceita nos círculos intelectuais londrinos - e tinha total apoio do marido, Leonard Woolf, para se entregar à escrita. Ele era seu editor e ela confiava completamente nele. É por isso que adoro tanto os romances e os pensamentos de Virginia Woolf: eles revelam  a mulher que só agora, em pleno século XXI, estamos conseguindo enxergar - como um ser humano.

Sobre a natureza da poesia em si, Orlando só descobriu que era mais difícil de vender que a prosa, e embora os versos fossem mais curtos, levavam mais tempo para serem escritos. (p. 44)


domingo, 9 de julho de 2017

Cazuza - Viriato Correa. Resenha crítica de *Caio Carvalho.

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- Pergunta você o que é o Brasil? É tudo que temos feito em prol do progresso, da moral, da cultura, da liberdade e da fraternidade. O Brasil não é o solo, o mar, o céu que tanto cantamos. É a história de que não fazemos caso nenhum.(p.185)

Neste texto, objetivamos levantar uma análise crítica a respeito da clássica obra Cazuza (1938) do aclamado escritor maranhense Viriato Correa. A trama nos traz a história do garoto que dá nome ao livro. Em um tom memorialístico ele nos conta a sua infância em uma narrativa dividida em três partes, nas quais são alterados os personagens, o espaço e até a temática expressa. Seguindo uma ordem cronológica, a infância do menino é situada no livro, agregando a isso sua perspectiva diante do que ele presencia.

Ao ler Cazuza, é impossível caracterizá-lo como um livro homogêneo referente à sua temática, pois a diversidade de traços que compõe o estilo do autor, atrelado ao imaginário da época é gritante. Dessa forma, pontuamos na obra uma reflexão específica: o patriotismo. O narrador nos traz, especialmente na parte 3, um relato do desejo que ele tem de que o brasileiro assuma sua verdadeira identidade, fazendo uma crítica aos que cantam a brasilidade de uma forma equivocada e contida, ao passo que defende que ela é muito mais que isso.

A culpa não é de vocês, é de quem lhes ensina noções falsas. Para muita gente, patriotismo é elogiar as nossas coisas mesmo quando elas não merecem elogios. É um erro. O verdadeiro patriotismo é aquele que reconhece as coisas ruins do seu país e trabalha para melhorá-las. (p.209)

A Literatura é um dos mecanismos de maior influência quando se quer valorizar a pátria. Na tese Literatura como Missão (1981), de Nicolau Sevcenko, o autor coloca a Literatura como uma forte arma que ajuda o leitor a refletir sobre os eixos sociais que compõem o contexto em que o indivíduo está inserido. Para Sevcenko, o texto literário é um documento de ação político-social, que denuncia as mazelas vividas e sugere possíveis correções.

Viriato Correa usa e abusa desse cunho social que a Literatura possui pois nos faz refletir sobre a forma com que o brasileiro percebia sua pátria e como esse brasileiro ensinava suas crianças.  O forte tom crítico do protagonista faz o leitor enxergar o patriotismo menos da perspectiva natural e mais do cunho identitário que os próprios brasileiros lutaram para que seu país possuísse.

Para além da questão patriótica, o livro retrata fielmente a cultura maranhense, além de nos fazer refletir a respeito do ensino formal nas escolas da época, do preconceito e desvalorização com a gente pobre - questões altamente sociais. Com uma linguagem concisa e diálogos rápidos, o leitor consegue devorar as 229 pág. bem rápido! Lembremos que acima de tudo, a leitura de Cazuza demonstra que Literatura não é apenas deleite; Literatura também é denúncia.

*Caio Carvalho é aluno do curso de Letras/Português da Universidade Estadual do Maranhão - UEMA, Campus Timon (MA).

domingo, 2 de julho de 2017

Wicked - Gregory Maguire

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(São Paulo: Ed.Leya, 2016)

A feitiçaria [...] não rasga, ela remenda. É síntese, em vez de análise. Gera o novo em vez de revelar o antigo. Nas mãos de alguém verdadeiramente qualificado [...] é Arte." (p.182)

Olá meus leitores, tudo bom? Depois de um mês festivo como junho (pelo menos pra nós aqui do Nordeste é assim!), ufa! chegamos em julho, mês de férias! E isso significa colocar o lazer em primeiro lugar, isto é, a leitura, né? Bom, vamos à uma gostosa indicação que serve pra todas as idades, especialmente os adolescentes!

Wicked (malvada/o em inglês) narra a história da vida cheia de preconceitos e dificuldades de Elfaba, antes de se tornar a famosa Bruxa Má do Oeste da terra encantada de Oz. Desde criança a moça tem que lidar com olhares desconfiados por conta de sua aparência meio sinistra: cor da pele esverdeada e uma magreza extrema contrastando com belos olhos e cabelos negros e sedosos. Seu pai, Frex, um pastor que prega o monoteísmo, gosta de exibi-la a seus fiéis seguidores como prova da misericórdia de Deus, já que em nenhum momento Elfaba demonstra ter má índole. Sua mãe, Melena, rejeita-a constantemente. 

Crescendo no ambiente pobre, rural e pantanoso da província de Quadling, sendo negligenciada por seus pais e seus dois irmãos, Nessarose e Casco, Elfaba se volta para a leitura - seu único prazer é adquirir mais e mais conhecimento. Assim ela chega à universidade e o destino faz com que divida o mesmo quarto com a burguesa Glinda, que mais tarde se tornará a Bruxa Boa do Norte. Apesar das diferenças profundas as duas se tornam amigas: Elfaba segue acreditando que sua essência é má, sempre questionando qual sua verdadeira missão. Já Glinda segue afirmando que a feitiçaria pode ajudar a trazer o bem a Oz, salvando o país das tiranias comandadas pelo famoso mágico.

Mas muitas coisas acontecem não só a Elfaba como a seus amigos, após os anos da universidade: eles aprendem que os atos tem consequências. Cada um tem seus ideais de vida colocados à prova, para testar se suas essências são de fato más ou boas. À medida que Elfaba, Glinda, Boq, Fiyero e Nessa assumem responsabilidades e dão um direcionamento a seus destinos, suas personalidades também se delineiam. E suas identidades se formatam em figuras de bruxas e homens da elite de Oz.

A temática principal da obra gira em torno dos conceitos de bem e mal, principalmente deste último, assim como as suas respectivas personificações. Wicked demonstra de forma crua como algumas facetas do mal se apresentam na sociedade: na escravização de mentes, na imposição de ideologias tirânicas, na hipocrisia e no silêncio condescendente que apóia o governo ilegítimo do mágico de Oz.

É lógico que eu sugiro que você leia logo em seguida (ou antes mesmo) o clássico da literatura infantil e juvenil O maravilhoso mágico de Oz (1900) do norte-americano L.Frank Baum: todos os elementos que estão nesta obra reaparecem em Wicked, como a menina Dorothy, seu cachorrinho Totó e os amigos que ela faz em Oz: o homem de lata, o espantalho e o leão covarde. Ah! E vocês entenderão finalmente, assim como eu, a razão de os famosos sapatos prateados serem encantados! Garanto que a leitura será de fato maravilhosa!

"[...] Ou o mundo simplesmente se descortina aos seus olhos, repetidas vezes, assim que você está pronto para vê-lo de maneira diferente?" (p.255)